Meditação 1º Sábado de Março de 2014

Terço13

O Anúncio do Reino

Introdução:

 Vamos dar início à meditação reparadora dos primeiros sábados, que nos foi indicada por Nossa Senhora, quando apareceu em Fátima em 1917. Pedia Ela que comungássemos, rezássemos um terço, fizéssemos meditação dos mistérios do Rosário e confessássemos em reparação ao seu Sapiencial e Imaculado Coração. Para os que praticassem esta devoção, Ela prometia graças especiais de salvação eterna.

No primeiro sábado de janeiro, meditamos sobre o anúncio do Reino com base no Evangelho de São Mateus, capítulo 4, que narra o início da vida pública de Jesus. A proclamação do Evangelho de hoje novamente nos fala do Reino de Deus, porém refletindo sobre a necessidade de nos desapegarmos dos bens deste mundo a fim de amarmos com mais exclusividade e intensidade a Nosso Senhor.

 

Composição de lugar:

Como composição de lugar, devemos nos reportar aos tempos de Cristo e nos imaginar entre os seus primeiros discípulos. Homens que tiveram a graça de acompanhar o Salvador no início de sua pregação.

Oração preparatória:

 

Pai nosso que estais nos Céu…

Ave Maria…

Santa Mãe de Deus, rogai por nós!

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (6, 24-34).

Ninguém pode servir a dois senhores: Porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestuário? Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?

E por que vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo — e não trabalham nem fiam! Eu digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus veste assim a uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca Fé? Não vos aflijais, pois, dizendo:

Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu mal” (Mt 6, 24-34).

 

 

I – Dois senhores que não admitem rivais

“Pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12, 8), respondeu Jesus a Judas que, perplexo diante de um grande gasto de Maria Madalena, que ungiu os adoráveis pés do Salvador, perguntara: “Por que não se vendeu esse bálsamo por trezentos denários e não se deu o dinheiro aos pobres?” (Jo 12, 5).

Essa é a grande ansiedade que permeia as almas de povos e nações dos últimos tempos, ou seja, a frenética busca dos bens materiais. Ora, segundo os Doutores espirituais, tanto mais se dividem os homens, quanto mais se apegam a esses bens. Pelo contrário, tanto mais união, benquerença e paz há entre eles, quanto mais se entregam aos bens espirituais. São Tomás de Aquino se serve várias vezes desse elevado pensamento de Santo Agostinho: “Os bens espirituais podem ser possuídos ao mesmo tempo por muitos, não, porém, os bens corporais”.

Assim, quanto maior for o número dos que possuem os mesmos bens do espírito, tanto melhor será.

Eis a Liturgia de hoje a nos indicar uma profunda solução para as crises atuais: a da desgastada questão social e a da ameaçada economia mundial.

Quanto mais o coração humano se entrega intensamente a uma determinada coisa, mais se aparta das outras. Seguindo essa via, alguns santos alcançaram um alto grau de virtude, sobretudo ao abraçarem o exagero. São Francisco de Assis chega a fazer um matrimônio místico com a pobreza, e Santo Inácio de Loyola, ao partir para Jerusalém, depois de sua contemplação em Manresa, deixa na praia de Barcelona tudo quanto lhe haviam dado; leva consigo três companheiras: a Fé, a Esperança e a Caridade.

“Ninguém pode servir a dois senhores: Porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas”.

O presente Evangelho faz parte do famoso Sermão da Montanha, do qual São Mateus transcreve as partes essenciais. Nele transparece a forte advertência do Divino Mestre contra o desvario dos que se afanam pelos tesouros deste mundo e acabam por se perder em meio às aflitivas preocupações da vida presente.

 

1 – Apego às riquezas constitui uma real escravidão

Neste versículo, é muito sutil e preciso o emprego do verbo servir, e não qualquer outro termo, pois o problema central não está em ter bens materiais, mas sim no valor que se dá a eles. E, sobretudo, no afeto que se lhes tenha. Em sua substância, encontramos aqui um desdobramento dos Mandamentos, em particular do primeiro, tal como o próprio Deus o declarou através de Seus profetas: “Não terás outros deuses diante de Mim. Não farás para ti imagem alguma, nem escultura […]. Não adorarás tais coisas, nem as servirás; Eu sou o Senhor, o teu Deus” (Ex 20, 3-5).

O apego às riquezas constitui, a partir de certo grau, uma real escravidão e “ninguém pode servir a dois senhores quando mandam coisas contrárias, nem mesmo quando ordenam coisas diferentes, porque a própria natureza impede que o amor do servo se reparta para dois senhores diversos”.

2 – Um servo não pode entregar sua vontade a dois senhores

Quando damos valor demasiado aos bens deste mundo, estamos conferindo a eles a autoridade de senhores e nos tornando seus escravos. Ora, sabemos o quanto a escravidão, em si mesma, é avassaladora. As faculdades do escravo pertencem ao senhor e a este deve ele entregar todo o seu serviço.

O verbo servir empregado neste versículo refere-se à situação de um servo que, sem restrição alguma, entrega sua vontade a um senhor, figura muito de acordo com a inclinação para os extremos, tão característica dos orientais. Neste caso, torna-se impossível ao servo obedecer a um segundo senhor que lhe dê qualquer incumbência oposta e simultânea à exigida pelo primeiro.

3 – Dois senhores rivais: Deus e o dinheiro

Resumindo, o Divino Mestre nos coloca diante de dois senhores inteiramente opostos no que concerne aos seus respectivos interesses: Deus e o dinheiro. O primeiro nos exige a crença n’Ele e em Suas revelações, a esperança em Suas promessas, com amor total, além da prática da castidade, da humildade, como também do cortejo de todas as virtudes. O dinheiro cobra de nós, e nos inspira ambição, volúpia de prazeres, vaidade, orgulho, menosprezo do próximo, etc. Um nos dá forças para praticar o bem e a este inclina nossas paixões, enquanto o outro nos arrasta para o mal e nele nos vicia. O Céu e sua eterna felicidade constituem o estímulo para os esforços exigidos por um dos senhores. A terra e seus prazeres fugazes são os atrativos oferecidos pelo outro. Por isso afirma Nosso Senhor: ‘É impossível que um rico entre no Reino dos Céus’ (Mt 19, 23).

Esses dois senhores não admitem rivais. O pior rival do dinheiro é Deus, e vice-versa. Por isso, a desgraça do rico que entrega seu coração aos bens da terra consiste em buscar em vão sua felicidade neles; e a desgraça do pobre está em iludir-se com a falsa felicidade oferecida pelas riquezas.

É preciso ter sempre diante dos olhos o quanto são opostos entre si, Deus e o mundo. Por isso, não queiramos servir a ambos ao mesmo tempo, como nos ensina São Paulo: “Não vos sujeiteis ao mesmo jugo com os infiéis. Que união pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que sociedade entre a luz e as trevas? E que concórdia entre Cristo e Belial? Ou que de comum entre o fiel e o infiel? E que relação entre o templo de Deus e os ídolos? Porque vós sois templos de Deus vivo” (II Cor 6, 14-16).

Oração de Petição:

 

Oração a Jesus como Rei do Universo

 Ó Cristo Jesus, eu Vos reconheço como Rei do Universo, sois o autor de toda a criação; exercei sobre mim todos os vossos direitos. Renovo as minhas promessas do Batismo, renunciando a Satanás, suas pompas e suas obras; e de modo especial comprometo-me a lançar mão de todos os meios ao meu alcance para fazer triunfar os direitos de Deus e de vossa Igreja.

Ó Sagrado Coração de Jesus, eu Vos ofereço minhas pobres ações para que os homens reconheçam a vossa Realeza Sagrada e o Reino de vossa paz se estabeleça por todo o universo.

 

II – Saibamos dar prioridade às nossas preocupações

“Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestuário? Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas?”.

A natureza puramente animal, assim como a vegetal, com seus instintos respectivos, normais e ordenados, e não possuindo uma alma imortal não buscam a felicidade infinita. Ademais, as aves não armazenam alimentos em celeiros e os lírios não tecem nem fiam, pois lhes falta a racionalidade para terem essas preocupações. Ora, o homem — mais do que as plantas buscam o Sol, e os animais o alimento —, possui uma alma que, num verdadeiro movimento em direção a Deus, vive à procura do infinito. Ainda que o homem ignore, quando ele busca o infinito, está buscando a Deus. “Buscar-Vos, ó meu Deus — clama Santo Agostinho — é buscar minha felicidade e bem-aventurança: devo buscar-Vos para que minha alma viva, porque sois Vós a vida de minha alma, assim como ela é que dá vida a meu corpo”.

O coração do homem só está em paz quando encontra Deus. Essa “felicidade e bem-aventurança” não estão no afã das riquezas, pois, ao desejá-las fora do amor a Deus, pobres ou ricos entregar-se-ão às ânsias voluptuosas de querer sempre mais.

 

1 – Deve-se procurar os bens materiais, mas sem inquietação

 Evidentemente, não exclui o Divino Mestre nossa obrigação em relação ao trabalho. Sobre este particular há numerosos comentários de Santos Doutores, demonstrando ser o trabalho um excelente meio de santificação. Jesus tem diante de Si todos aqueles que colocam como último limite de seus horizontes os bens materiais, e na obtenção destes aplicam sofregamente toda a sua preocupação. Essa atitude carrega consigo uma boa parcela de culpabilidade, além de ser autodestrutiva. Antes de tudo, por ofender de certa forma a Deus, ao manifestar-Lhe desconfiança de Sua bondade. E ademais, perde o apoio divino ao colocar toda a sua segurança em esforços e planejamentos pessoais. Em síntese, torna-se patente o quanto o homem não pode descuidar dos bens eternos, pelo fato de ir atrás do indispensável à vida.

Deve-se buscar os bens materiais, mas sem inquietação, pois esta implicaria em negar a infinita generosidade de Deus.

2 – Se nosso Pai cuida de criaturas inferiores, quanto mais não cuidará de nós?

Quando dentro da correria moderna fazemos uma pausa para observar a natureza viva — desde a tenacidade das formigas em busca de alimento, até a agilidade de um colibri, sugando com elegância o conteúdo de uma flor — num ato contínuo louvamos a Deus, por constatar essa maravilhosa disposição da Divina Providência de oferecer a insetos e animais o necessário para o seu sustento. “Todos esses seres esperam de Vós que lhes deis de comer em seu tempo. Vós lhes dais e eles o recolhem; abris a mão, e se fartam de bens” (Sl 103, 27-28).

É, de certa forma, curioso referir-se o Divino Mestre às aves “do céu” e não às domésticas, pois estas são alimentadas pelos homens e as outras pelo “vosso Pai celeste”. Ou seja, se nosso Pai cuida de criaturas tão inferiores que não têm nenhum grau de filiação em relação a Ele, quanto mais não cuidará de nós, irmãos de Seu “Filho muito amado” (Mt 3, 17)!

3 – O afeto de Deus visa também a nossa elegância e pulcritude

“E por que vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo — e não trabalham nem fiam! Eu digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus veste assim a uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca Fé?”.

Jesus deixa claro serem esses lírios, os “do campo”, ou seja, os que nascem a esmo, sem os cuidados dos homens. Na mesma linha do que anteriormente dissera sobre as aves, ou seja, as “do céu”, e não as domésticas. Chama-nos a atenção, de modo especial, o carinho empregado pelas mães ao providenciarem as roupas para suas crianças, pois procuram sempre vesti-las com beleza. Esse é o afeto de Deus ao cuidar de cada uma de Suas criaturas humanas: visa Ele não só nossa alimentação — como o faz com as “aves do céu” — mas também nossa elegância e pulcritude. Esse esmero de Deus será ainda muito maior nos albores da ressurreição dos corpos: “Pelos lírios, podem-se entender as celestes claridades dos Anjos, que o próprio Deus reveste de uma glória deslumbrante. Eles não trabalham nem fiam, porque a graça que, desde sua origem, assegurou a felicidade dos Anjos, difunde-se sobre todos os momentos de sua existência; e como, após a ressurreição, os homens serão semelhantes aos Anjos, Nosso Senhor, fazendo brilhar aos nossos olhos o esplendor das virtudes celestes, quis nos fazer esperar essa vestimenta de glória eterna”.

O exemplo de Salomão, preocupado por vestir-se à altura da sabedoria que lhe havia sido gratuitamente concedida por Deus, é de uma extraordinária eloquência para todos os tempos. Pois, quem com mais arte saberia realizar essa tarefa? São João Crisóstomo sintetiza bem a diferença entre as vestes de Salomão e as criadas por Deus: “das vestiduras de Salomão à flor do campo há a distância da mentira à verdade”.

Consequentemente, duvidar ou, pior ainda, não crer na Providência Divina é suficiente para sermos classificados como “homens de pouca Fé”, pois, se esses são os cuidados de Deus para com ervas a serem queimadas quando murcharem, quanto maiores não serão eles com as almas imortais e os corpos ressurrectos!

III – Conclusão

“Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo”.

 

A síntese de toda a doutrina do Evangelho se encontra nas palavras deste versículo; trata-se de, em primeiro lugar, buscar o Reino de Deus, como também a própria justiça desse mesmo Reino, tal como Jesus o pregou, ou seja, o oposto do almejado pelos fariseus.

O Reino de Deus pode ser considerado debaixo de três diferentes prismas: o da glória dos bem-aventurados, ou seja, o triunfante; o da Santa Igreja, que se evidencia no visível e externo Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo; e, por fim, o da graça santificante em nossas almas ou interno.

Assim, devemos buscar a realização da santidade de Deus em nós, por meio do ódio ao pecado, numa aspiração crescente de Lhe obedecer na prática de todos os Mandamentos, com base num abrasado amor a Ele. Conduzindo, por um dinâmico zelo apostólico, a todos com quem tenhamos alguma relação, às vias dessa santidade, para maior brilho da Santa Igreja e salvação das almas. E, por fim, almejando o Reino eterno na glória.

Já em nosso despertar matutino — quer sejamos pobres, quer ricos — devemos ter a lembrança deste conselho de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça…”. Mas, infelizmente, os pobres em sua grande maioria não o fazem e, por isso, são objeto do egoísmo dos outros, vivendo em pobreza neste mundo e ameaçados a nela se lançarem eternamente. E os ricos menos ainda são inclinados a seguir a voz de Cristo, por imaginarem já possuir “todas estas coisas”…

 

“Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu mal”.

Preocupemo-nos primordialmente em santificar-nos a fim de obtermos o Reino de Deus. Pratiquemos as virtudes e enriqueçamo-nos dos bens do Céu na plena confiança de que, assim, não nos faltarão os da Terra. Evitemos a ruína do relativismo moral de nossos dias e cumpramos nossos deveres do dia-a-dia sem as aflições do amanhã.

Não nos é vedado fazer o uso prudente no que diz respeito à nossa manutenção. É-nos proibido, isto sim, uma destrutiva inquietação com o nosso futuro material que nos leve a esquecer as obrigações de maior atualidade e importância com relação ao Reino de Deus.

Oração Final:

Pai nosso, que estais no Céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa Vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.

Fonte: Apostolado do Oratório – Arautos do Evangelho

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