Meditação 1º Sábado de Novembro de 2013

A Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo no Tabor

transfiguratio

Introdução:

Vamos dar início à meditação reparadora dos primeiros sábados, que nos foi indicada por Nossa Senhora, quando apareceu em Fátima em 1917. Pedia Ela que comungássemos, rezássemos um terço, fizéssemos meditação dos mistérios do Rosário e confessássemos em reparação ao seu Sapiencial e Imaculado Coração. Para os que praticassem esta devoção, Ela prometia graças especiais de salvação eterna.

Estamos nos aproximando da celebração da festa magna da cristandade, o Santo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esperado por 4 mil anos, o Messias, com o seu Preciosíssimo Sangue, resgatou o gênero humano e abriu-nos as portas do Céu. No entanto, pouco sabemos o que significa passar a eternidade gozando da presença augusta de Deus face a face.

O Evangelho de São Mateus, no capítulo 17, nos narra a ocasião em que Nosso Senhor Jesus Cristo se transfigurou para os Apóstolos Pedro, Tiago e João. Aquela Transfiguração foi para os discípulos um antegozo do Céu e uma imensa consolação para enfrentar as futuras provações da Paixão e Morte d’Ele.

Composição de Lugar:

Como composição de lugar, devemos nos reportar aos tempos de Cristo, e nos imaginarmos no alto do Monte Tabor, contemplando a face divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, brilhante como um sol e transfigurada.

Oração Preparatória:

Pai nosso que estais nos céu…

Ave Maria…

Nossa Senhora Porta da Aurora, rogai por nós!

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus:

Seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os à parte a um monte alto, e transfigurou-Se diante deles. O Seu rosto ficou refulgente como o Sol, e as Suas vestes tornaram-se luminosas de brancas que estavam. Eis que lhes apareceram Moisés e Elias falando com Ele. Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: “Senhor, que bom é nós estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas, uma para Ti, uma para Moisés, e outra para Elias”. Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem resplandecente os envolveu; e saiu da nuvem uma voz que dizia: “Este é o meu Filho muito amado em quem pus toda a minha complacência; ouvi-O”. Ouvindo isto, os discípulos caíram de bruços, e tiveram grande medo. Porém, Jesus aproximou-Se deles, tocou-os e disse-lhes: “Levantai- vos, não temais”. Eles, então, levantando os olhos, não viram ninguém, exceto Jesus. Quando desciam do monte, Jesus fez-lhes a seguinte proibição: “Não digais a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos” (Mt 17, 1-9).

I – A imensa felicidade do Paraíso Celeste

São Paulo declara aos Coríntios ter sido arrebatado ao Céu em certo momento de sua vida, e lá ter ouvido palavras impossíveis de serem transmitidas e menos ainda de poder explicá-las: “… foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras que não é possível a um homem repetir” (II Cor 12, 4).

De fato, para os místicos torna-se difícil externar suas experiências interiores, e daí bem podemos compreender o quanto faltaram a São Paulo os termos de comparação para relatar o que com ele se passara, pois, segundo o que ele mesmo havia dito anteriormente: “nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9). Essa é a maravilha que nos aguarda no momento de ingressarmos na vida eterna. E esse deve ter sido um considerável motivo para São Paulo perseverar até a hora de seu martírio, apesar de ter ele visto então apenas reflexos do Absoluto que hoje contempla face a face.

1 – Visão beatífica e conhecimento de Deus através das criaturas

Consideremos em profundidade — até onde pode alcançar nossa inteligência fortalecida pela fé — qual será a essência de nossa felicidade quando ingressarmos na visão beatífica.

Segundo São Tomás de Aquino, todos os seres criados por Deus poderiam ter sido superiores, com exceção de três: a humanidade de Cristo, por estar unida à pessoa de Deus Filho; a Virgem Santíssima, por ser Mãe de Deus; e a visão beatífica, por se tratar da visão do próprio Deus (1).

São Paulo afirma ser imperfeito nosso conhecimento nas atuais circunstâncias, mas “quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será abolido” (I Cor 13, 10). E torna ainda mais clara essa ideia utilizando-se desta comparação: “Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança, discorria como criança. Mas, quando me tornei homem, dei de mão às coisas que eram de criança. Nós agora vemos como que por um espelho, obscuramente, mas (no Céu) então veremos face a face” (I Cor 13, 11-12).

Sem dúvida alguma, hoje aceitamos inúmeras verdades que a doutrina cristã nos revela através da virtude da fé, mas no Céu, a fé se transforma em visão. Ou seja, não teremos mais necessidade dela, pois a visão de Deus face a face confirmará tudo aquilo que cremos.

“Agora vemos como que por um espelho…”, ou seja, por meio de um instrumento conhecemos a Deus, porque as coisas invisíveis d’Ele, depois da criação, tornaram-se visíveis (Rm 1, 20). É por meio das criaturas que entendemos melhor o Criador, mas é um meio indireto, obscuro, portanto imperfeito. Porém, quando chegar o fim, teremos um conhecimento imediato e claro de Deus.

2 – O que é o Céu?

O Céu é “o fim último e a realização de todas as aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva” (2); e essa é a glória que transparece na Transfiguração de Cristo no Tabor. Ao transfigurar-Se, o Senhor manifestou aos três Apóstolos o esplendor de Sua alma e de Seu corpo para animá-los, em função da glória final, a percorrerem o espinhoso e dramático caminho do Calvário e, com fortaleza de alma, aceitarem o futuro martírio que os aguardava.

II – A Transfiguração do Senhor

Por que Nosso Senhor escolheu o Monte Tabor? Talvez para simbolizar a necessidade de elevarmos nossos corações sobre as coisas deste mundo e, em consequência, mais facilmente nos entregarmos à meditação das verdades eternas e delas tirarmos todo proveito, conforme as palavras de São Remígio: “Com isto o Senhor nos ensina que é necessário, para quem deseja contemplar a Deus, não se deixar atolar nos baixos prazeres, mas elevar a alma para as coisas celestiais, por meio do amor às realidades superiores. Ensina ainda a Seus discípulos que não devem procurar a glória de sua beatitude divina nas regiões inferiores do mundo, mas sim no reino da beatitude celestial” (3).

Outra razão é pelo fato de que apartar-se das criaturas é condição indispensável para entrar em contato com Deus e, mais ainda, para vê-Lo.

1 – A refulgência esplendorosa da alma de Jesus

Como narra o Evangelho, Nosso Senhor transfigurou-Se diante dos Apóstolos. “O Seu rosto ficou refulgente como o Sol, e as Suas vestes tornaram-se luminosas de brancas que estavam”.

No que terá consistido essa Transfiguração? Evidentemente, não viram os Apóstolos a divindade de Cristo, inacessível aos olhos corporais. Viam apenas uma fímbria dos fulgores da verdadeira glória da humanidade sagrada de Jesus. Provavelmente, nada mais do que o dom da claridade da qual gozam os corpos gloriosos.

Tenhamos presente o quanto o Salvador tinha preferência pela noite para rezar e por isso esse marcante acontecimento podemos imaginar que tenha dado após o entardecer, em meio aos silêncios da natureza, pois também assim Ele Se manifesta a nós quando fazemos calar, em nosso interior, o murmúrio das criaturas e buscamos as luzes do alto depois de termos apagado as de aqui debaixo.

“O seu rosto resplandecia como um Sol” (Ap 1, 16), ou seja, raios de luz partiam de Sua Sagrada Face e se espalhavam a boa distância. Sem deixar de ser a mesma fisionomia, nada mais possuindo de conotações terrenas, tornou-se radiante de brilho e esplendor, com plena vitalidade e doçura. Bem podemos imaginar Sua grandeza ao vir julgar os vivos e os mortos no fim dos tempos, uma vez que Seu rosto será ainda muitíssimo mais brilhante nessa ocasião.

Por mais sublime que seja a arte humana, difícil lhe é superar certas belezas da natureza saídas das mãos de Deus. Acima dessas, estão as maravilhas da graça, as quais ultrapassam todos os limites. Assim deveriam ser as vestes de Jesus durante Sua Transfiguração, bem diferente, aliás, das usadas por nós nessa vida que termina em morte. Esse brilho das roupas de Jesus era uma pálida manifestação da glória de Sua adorável alma, bem-aventurada pela graça de união e por encontrar-se na visão beatífica desde o primeiro instante de Sua criação.

2 – O poder sobre a morte e a vida

Continuando, o Evangelho nos diz que na Transfiguração apareceram Moisés e Elias falando com Ele.

Se a fé dos Apóstolos necessitasse de uma confirmação, ali estavam duas testemunhas adorando a Cristo Jesus. Mas não eram duas testemunhas quaisquer, elas tinham enorme significado: uma representando a Lei, e a outra os Profetas. Intimamente ligados ao Messias, cumpriam de maneira soberana as exigências jurídicas para a autenticidade de um testemunho absoluto. Termina a Lei, cumprem-se as profecias. Toda a criação se prostra aos pés do Prometido das nações.

Esses dois grandes personagens aparecem na Transfiguração do Senhor, segundo nos assegura São João Crisóstomo, “para que se soubesse que Ele tinha poder sobre a morte e sobre a vida; por esta razão apresenta Moisés, que tinha morrido, e Elias, que ainda vivia” (4).

3 – “Eu e o Pai somos um ”

E o que dizer da nuvem resplandecente que os envolveu? Dela saiu uma voz que dizia: “Este é o Meu Filho muito amado em Quem pus toda a Minha complacência; ouvi-O”.

Nas Escrituras Sagradas, aparece algumas vezes esta ou aquela nuvem para simbolizar a presença de Deus e Sua manifestação divina. Várias são as passagens do Êxodo em que elas são utilizadas como sinais sensíveis dessa manifestação.

Não resta a menor dúvida de ser do Pai a voz que proclama: “Este é o meu Filho”. E de fato, analisando em profundidade, somente Cristo Jesus preenche todos os requisitos de Filho perfeito. Possui a mesma substância do Pai, como ele mesmo afirmou: “O Pai e eu somos a mesma coisa” (Jo 10, 30). “Filipe, quem me vê, vê também a meu Pai” (Jo 6 14, 9).

N’Ele coexistem as duas naturezas: É o Verbo Divino que resplandece em glória; e é humano quando proclama que manifestou o nome de Deus aos homens e O glorificou sobre a Terra (Hb 1, 3), (Jo 17, 6), (Jo 17, 4).

Além disso, foi de uma insuperável obediência: “Não se faça a Minha vontade, mas a Tua” (Lc 22, 42); “o meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou” (Jo 4, 34); “fez-Se obediente até a morte, e morte de Cruz!” (Fl 2, 8). Sempre em inteira submissão, imitando-O em tudo: “O Filho não pode por Si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vê fazer o Pai” (Jo 5, 19).

Ele não é filho adotivo de Deus como nós, através do Batismo. Mas Ele é Filho de Deus por natureza. Como nos diz São João: “O Filho de Deus veio e nos deu entendimento e luz para conhecermos o verdadeiro Deus” (I Jo 5, 20).

4 – O Filho amado O qual Deus pôs toda a Sua complacência

Quando amamos algo, buscamos uma bondade que preexiste nesse algo, enquanto reflexo do próprio Deus. Nosso amor não é eficiente a ponto de produzir a bondade nos objetos que amarmos. Pelo contrário, o amor de Deus, segundo São Tomás de Aquino, é tão rico que introduz a bondade nos seres por Ele amados. Ele é a Bondade por essência e a difundiu por todas as Suas criaturas. Porém, o Evangelho afirma que o Pai colocou “toda” a Sua complacência em seu Filho Unigênito (Jo 3, 35). Portanto, ao colocar n’Ele todo o Seu amor, pôs n’Ele, toda a Sua bondade.

5 – A fragilidade humana diante da glória de Deus

Ouvindo isto, os discípulos caíram de bruços, e tiveram grande medo.

A voz do Senhor toca a fundo o coração dos inocentes, tal qual se deu com Pedro na barca, ou com Tomé no Cenáculo: caem com a face por terra. Sobre os maus, seu efeito é bem o contrário: caem de costas, como sucedeu com os soldados que foram prender Jesus no Horto das Oliveiras.

São Jerônimo procura nos explicar as razões desta queda dos Apóstolos: “Por três motivos caíram aterrorizados: porque compreenderam seu erro, porque ficaram envolvidos pela nuvem luminosa e porque ouviram a voz de Deus que lhes falava. E não podendo a fragilidade humana suportar tamanha glória, ela se estremece com todo o seu corpo e toda a sua alma, e cai por terra: pois o homem que não conhece sua medida, quanto mais queira elevar-se até as coisas sublimes, mais desliza até as baixas”(5).

Porém, Jesus aproximou-Se deles, tocou-os e disse-lhes: ‘Levantai- vos, não temais’.

Além da onipotência de Sua presença e de Sua voz, Jesus quis tocá-los com Sua própria mão. Esse fato nos faz recordar aquela passagem de Daniel: “uma mão me tocou e fez-me levantar” (Dn 10, 10). Tornou-se, assim, evidente para eles o quanto essa força partia de Jesus e não da natureza deles.

Eles, então, levantando os olhos, não viram ninguém, exceto Jesus.

Desaparecem de seus olhos a Lei e os Profetas. Agora entendem experimentalmente o quanto Jesus é o Esperado das nações.

III – Conclusão

No Tabor, Jesus Cristo faz-nos conhecer uma parcela de Sua glória nos reflexos da claridade própria a Seu corpo após a Ressurreição. Pálida exemplificação do que veremos no Céu, como fruto dos méritos de Sua Paixão, dos fulgores de Sua visão beatífica e da união das naturezas divina e humana. Como objetivo imediato, quis Ele fortalecer seus discípulos para assumirem com heroísmo as tristes provações de Sua Paixão e Morte, à margem da manifestação de Sua divindade. Porém, não era alheio aos Seus divinos desígnios, deixar consignado para a História quais são as verdadeiras e reais alegrias reservadas aos justos post mortem.

Em contrapartida, o demônio, o mundo e o pecado nos prometem contentamentos com ares de eternos. Entretanto, sua fruição é quase sempre fugaz e seguida de amargas frustrações; além do mais, ao término desta vida seremos lançados no fogo eterno como castigo, se não tiver havido de nossa parte um verdadeiro arrependimento, propósito de emenda e a obtenção do perdão de Deus.

No Tabor a voz do Pai proclama: “ouvi-O”. Esta recomendação se dirige sobretudo a nós, batizados, pois somos filhos adotivos de Deus e, portanto, já passamos por uma imensa transformação quando ascendemos à ordem sobrenatural, deixando de ser exclusivamente puras criaturas. Porém, quando penetrarmos na ordem da glória, outra transformação se dará, pois seremos como Ele o é agora. Para lá chegarmos, convida-nos Jesus a iniciarmos pelas agruras dos primeiros passos no caminho da virtude, sustentados logo depois por muita paz de alma e, por fim, sermos nós mesmos transfigurados no alto do Tabor eterno.

O Céu, por si só, é uma enorme manifestação da bondade de Deus, um riquíssimo tesouro de felicidade que Ele nos promete e um poderoso estímulo para aceitarmos com amor as cruzes durante nossa existência terrena. Confiemos nessa promessa com base nas garantias da Transfiguração do Senhor e peçamos à Mãe da Divina Graça que bondosamente nos auxilie com os meios sobrenaturais a chegarmos incólumes, decididos e seguros ao bom porto da eternidade: o Céu.

Oração Final:

Oração rogando a Nosso Senhor o dom da bem-aventurança celeste

Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Vós vos transfigurastes no Monte Tabor a fim de que vossos discípulos compreendessem melhor a vossa missão e vossa filiação divina; compreendessem que o vosso Reino não é deste mundo, que a Cruz que Vos aguardava não seria sinal de derrota e que a glória vos pertence e vos acompanha por direito e poder, independente dos acontecimentos.

Sabemos que redimistes o gênero humano, triunfastes sobre o mundo, o demônio e o pecado; e que com a vossa morte vencestes a morte. Porém muitas vezes a obra devastadora do inimigo nos tenta à incredulidade, fraquejamos e diminuímos nosso fervor, nossa piedade e nosso amor para convosco. Na certeza de que reservastes para os justos o Paraíso Celestial, onde nos aguardam os Anjos e a Bem-aventurada Virgem Maria, dai-nos por intermédio d’Ela o fortalecimento das virtudes da fé, esperança e caridade; sobretudo a graça da perseverança final, a fim de que, tendo alcançado o estado de glória, gozemos eternamente da vossa augusta Face. Assim seja!

Fonte da Meditação:
APOSTOLADO DO ORATÓRIO
Rua Francisca Júlia, 182 – São Paulo/SP
Arautos do Evangelho

Obras utilizadas:
1) AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. I, q.25, a.6, ad 4.
2) CCE 1024.
3) AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
4) Idem, ibidem.
5) Idem, ibidem.

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