Maria, Virgem Orante

A Virgem Maria sempre foi considerada não só orante, mas mestra da oração. Na sua “escola” de silêncio e de contemplação se aprende a entrar em comunhão com Deus. À casa de Nazaré, devemos voltar muitas vezes para contemplar Maria na sua atitude orante à espera da vinda do Salvador, do libertador do seu povo. Em Maria, os sentimentos e a esperança do povo se fazem realidade. É a pobre de Javé que suplica e intercede, e Deus, olhando a sua sinceridade e humildade, a escolhe como mãe do seu Filho unigênito.

Não são muitas as palavras que os evangelistas nos transmitem de Maria. Lucas, o evangelista da infância de Jesus e de Maria, dedica mais espaço à humanidade do Senhor e faz resplandecer em Cristo a beleza do rosto de Maria, e em Maria a beleza, a luz do rosto de Jesus.

Meditando as poucas palavras de Maria, podemos penetrar no seu santuário e perceber toda a sua grandeza; meditando o seu silêncio, sentimos sua presença permanente ao lado de Jesus e de toda a humanidade. Maria é a sombra benfazeja que cobre com seu amor o Cristo peregrino entre nós.

A alegria da alma de Maria

Embora todas as atitudes de Maria sejam oração, o evangelista Lucas quis deixar-nos uma “amostra” de como ela rezava. O cântico de Maria, conhecido pela palavra latina “Magnificat”, não é outra coisa senão um caminho de oração. Um método de oração simples, que nasce da realidade, do contexto da vida e se faz fermento, dando sentido a todas as nossas ações.

O Magnificat é a transparência da alma de Maria que, profundamente tocada pelas palavras de sua prima Isabel ao elogiar a sua fé, explode de alegria com palavras de louvor ao Senhor Todo-poderoso.

Então, leia lentamente o texto (Lc 1,46-55), sem pressa, com amor, com o coração cheio de gratidão, tentando compreender o sentido de cada palavra:

“A minh’alma engrandece o Senhor e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador; porque olhou para a humildade de sua serva, doravante as gerações hão de chamar-me de bendita.

O Poderoso fez em mim maravilhas e Santo é o seu nome!

Seu amor para sempre se estende sobre aqueles que o temem; manifestou o poder de seu braço dispersou os soberbos; derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes; saciou de bens os famintos, despediu os ricos sem nada.

Acolheu Israel seu servidor, fiel ao seu amor, como havia prometido a nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos para sempre.”

Depois de ler o texto do Magnificat, é interessante ler com muita atenção as referências bíblicas inseridas neste hino de Maria. Sabemos que o Magnificat não é o canto de Maria assim como ela se expressou naquele momento do encontro maravilhoso com sua prima Isabel. Não é uma gravação, mas uma “reconstrução” de Lucas. O evangelista, depois de conversar com Maria, percebeu que as palavras da mãe de Jesus eram como um maravilhoso bordado de conceitos e frases bíblicas, presentes no Antigo Testamento. Como nós, que ao falar, sem querer, citamos São João da Cruz, Santa Teresa, São Francisco, frases de livros já lidos, de pregações ouvidas, e fazemos nossas tantas idéias que, na verdade, outras pessoas antes de nós expressaram.

Esta continuidade da história entre passado, presente e futuro é algo bonito, impressionante. A nossa oração segue o mesmo caminho. Por isso é importante dedicar um pouco do nosso tempo à leitura meditativa destas passagens: 1Sm 2,1-10; Is 61,10; Hab 3,18; 1Sm 1,11; Gn 30,13; Sl 111,9; Sl 103,17; Sl 89,11; Jó 12,19; Is 41,8-9; Gn 12,3.

Os “três olhares” de Maria

A oração de Maria é percebida na sua vida, no seu silêncio e, principalmente, no fato de acompanhar Jesus em todos os momentos de sua vida, de Belém ao calvário, e ainda depois, como no cenáculo.

Poderíamos colocar em evidência a dinâmica do olhar de Maria, que faz brotar a sua oração contemplativa: ela olha o presente, o passado e o futuro.

Quando nos colocamos em oração, a primeira atitude é deixar o nosso coração agradecer e louvar ao Senhor por tudo. Inclusive pelos sofrimentos, cruzes e dificuldades do dia-a-dia. Deus se revela em todos os momentos de nossa vida. É preciso olhar o presente como “momento de eternidade”, como sacramento em que se realiza a nossa salvação e a nossa experiência profunda de Deus. O presente traz à nossa mente e ao nosso coração as alegrias que experimentamos no convívio com os outros. Sempre que rezamos precisamos saber dizer, como Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Mas por que a alma de Maria se alegra no Senhor?

O presente é muito pequeno para compreendermos as maravilhas que o Senhor tem operado na nossa caminhada, então, os santos sempre olham o passado. Primeiramente, para reconhecer os próprios pecados e pedir perdão a Deus, experimentando assim a misericórdia do amor. Os pecados nos acompanham por toda a vida. Se meditássemos mais neles, sem dúvida, seríamos mais sábios e evitaríamos no futuro tantos erros. Contemplar os pecados não com desespero ou duvidando da misericórdia do Senhor, mas na certeza do amor – e o amor, segundo São João da Cruz, com amor se paga.

Maria olha o passado não para reconhecer o seu pecado, pois dele fora preservada; mas ela possuía um grande sentido de humildade, de pobreza. Tinha consciência de sua pequenez. Ela é a pobre de Javé, a mulher simples, destituída de todo o poder, mas enriquecida pelo poder e autoridade do amor e do serviço.

“Ele viu a pequenez de sua serva”

Maria sente-se profundamente feliz por ter sido escolhida por Deus para a grande missão de trazer à terra o Verbo eterno; por emprestar a sua carne à Palavra e revesti-la da verdadeira humanidade.

A humildade não é desprezar a nós mesmos, mas termos consciência do nosso valor, do que somos. E saber que todas as qualidades que possuímos são dons de Deus.

Todos os verbos do Magnificat estão conjugados no passado, para mostrar que Maria é contemplativa do passado; conserva em si a memória límpida e transparente, uma memória “purificada” de todo o mal, revigorada por todo o bem. Uma memória sempre virgem e “re-virginizada” pela experiência do amor de Deus, atuante na história da humanidade. O passado, em Maria, não traz medo, mas gera alegria, porque ela sabe ver que a vitória de Deus é sempre maior do que o pecado.

Fez maravilhas

Na oração pessoal, é sempre bom recordar as maravilhas que o Senhor foi realizando na nossa vida. A partir do dom do nascimento, da inteligência, da saúde, da perfeição física. Temos milhões de motivos na vida para percebermos que Deus não nos abandona, mas caminha ao nosso lado. O mistério da fé gera em nós o desejo de sermos fiéis. A palavra-chave para que Deus opere maravilhas é a nossa “fidelidade”.

Pare um pouco hoje e contemple as maravilhas que Deus fez em você e através de você. Mas veja também como os irmãos ao seu redor consideram você, necessitam de você, e como você é instrumento necessário para que o Reino se dilate e se torne cada vez maior e mais presente. Descobrir as maravilhas de Deus é como remover toneladas de terra em busca de um grama de ouro; ou remover pedras para procurar uma nascente de água viva. Não desista! Dentro de você está o ouro e está a nascente da água viva.

Demonstrou o poder

O braço de Deus é poderoso! Não para esmagar ou para escravizar, mas para libertar. Deus entra na nossa história para nos restituir a dignidade com que nos tinha criado e que nós, por nossa culpa, perdemos. Experimentar o braço forte de Deus é sentir o seu amor; reconhecer que Ele é nossa rocha, nossa fortaleza, o escudo que nos defende e nos abriga.

Neste momento, é importante você pensar um pouco: de quantas e quais dificuldades e perigos Deus o libertou ao longo de sua vida? Perigos materiais, espirituais, situações difíceis? Como Ele foi bom com você!

Maria sentiu que o braço do Senhor estava presente sempre e a defenderia de todos os ataques do mal.

Dispersou

A memória histórica de Maria é aberta ao passado. Ela olha a história com positividade, vê e contempla a vitória de Deus sobre todos os orgulhosos. O orgulho é um pecado capital, é uma raiz de onde brotam tantos outros pecados que prejudicam a vida da comunidade. Querer ser maiores do que os outros, sentir que somos sempre mais importantes… O pecado de Lúcifer foi querer ser como Deus. Nada de mais destruidor de si mesmo e dos outros que o orgulho. Por isso Maria contempla como Deus dispersou os orgulhosos.

Derrubou

Os poderosos não têm força para se manter de pé por muito tempo. A fidelidade de Deus é para os pequenos e humildes que não confiam na força das armas, mas na força do amor e do poder de Deus. É só olhar a história para ver o resultado disso: são lembrados os santos, que deixando de lado o poder e a exploração dos pobres souberam se colocar ao lado dos necessitados.

Deus quer que o poder, dentro e fora da Igreja, seja somente serviço: “Eu não vim para ser servido, mas para servir”. Se Deus derruba os poderosos, Ele exalta os humildes.

Exaltou

Exaltar é colocar em evidência, no centro da comunidade. Deus exalta quando resgata os pobres e os coloca como modelo para os outros. A palavra “humilde” tem a mesma raiz de “húmus”, terra fértil, bem adubada. A humildade é, portanto, a terra mais fértil onde brota a oração, a santidade, o amor, a vida.

Este é o momento histórico de recuperar a verdadeira humildade, não como sinal de “incapacidade”, mas de autenticidade, de verdade. Santa Teresa nos diz que “humildade é caminhar na verdade”. E Jesus faz referência à sua própria humildade: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde”.

Humildade que é reconhecer, ao mesmo tempo, as próprias qualidades e as próprias limitações. Ninguém é capaz, mais do que nós mesmos, de nos “auto-avaliar” quanto valemos. Tanto é orgulhoso quem se subestima como quem se superestima. A oração é colocar-nos diante de Deus com as nossas qualidades para agradecer ao Senhor, e com o peso dos nossos pecados para pedir perdão.

Saciou os famintos

Este versículo é, de certa forma, o prenúncio das bem-aventuranças. É a fome e a sede de justiça que o Senhor não pode deixar de saciar, a busca do verdadeiro alimento que nos sacia; a busca do Reino de Deus.

A nossa oração é verdadeira quando torna-nos atentos às necessidades dos outros. O encontro com Deus na intimidade e na oração nos obriga a descer do monte e assumir as muitas fomes dos nossos irmãos. É preciso, como Maria, olhar ao nosso redor e ver quais são as fomes do povo: fome de cultura, de justiça, de saúde, de moradia, de amor, de perdão, de paz, de vida… Não se pode somente contemplar estas fomes, mas é necessário fazer algo para diminuir o peso da angústia que gravita no coração de tantas pessoas simples e humildes.

Despediu

A primeira atitude de quem se prepara para rezar é ter a certeza de que ninguém pode aproximar-se de Deus achando que tem “direito” de receber. Simplesmente somos mendigos de mãos estendidas, apresentadas não tanto com os nossos pedidos, mas mostrando silenciosamente as nossas necessidades. Deus, que vê os corações contritos e humildes, virá em nosso socorro. Ele nunca abandona os que suplicam, em silêncio, diante dele, porque antes que nós peçamos Ele sabe o que nós precisamos para nós mesmos e para os outros.

É necessário romper o “egoísmo” da nossa oração, em que estamos preocupados somente conosco e esquecemos o que o outro necessita. Tantas vezes voltamos de mãos vazias das nossas orações porque pedimos com arrogância e prepotência. O único caminho que comove o coração de Deus é a humildade.

Acolheu

Os braços de Deus se abrem para receber o povo que caminha, que peregrina na busca da verdadeira terra prometida, que experimenta a dor e a saudade da espera, prolongada pela vinda do Messias. Maria sabe esperar; sabe que a promessa feita a Abraão não será inútil, mas será realizada sempre. Como é bom sentir-se acolhido na tenda de Deus e saber que tudo se realizará plenamente, porque Deus é fiel à sua promessa e o povo também busca ser fiel ao que Ele promete. Por isso, o último versículo do Magnificat faz referência às promessas feitas a Abraão, nosso pai na fé, na esperança e na perseverança.

O orante não pode duvidar de ser acolhido por Deus, mas sabe que o Senhor será fiel. A fidelidade não tem tempo, ela é para sempre e deve ser característica do amor. O amor fiel sabe esperar. Que este artigo nos coloque na escola de oração da Virgem Maria, nossa mãe!

Fonte: Comunidade Shalom

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