Maria, mestra do amor

Todos nós necessitamos de pontos de referência, de pessoas que nos ensinem a caminhar diante do novo de nossa vida, diante dos desafios que surgem no caminho. Em nossa infância tivemos nossos mestres, nossa primeira professora que nos ensinou a escrever as primeiras palavras, nossos mestres que nos prepararam para alcançar uma cultura que nos capacitasse a nos integrarmos na sociedade. Mas foram nossos pais, com certeza, os nossos primeiros mestres.

Eles nos formaram desde antes que nascêssemos e, desde o seio materno, já começamos a aprender lições de vida. Que bom seria se só tivéssemos aprendido boas lições e ensinamentos edificantes! Mas, infelizmente, não é assim, trazemos também fatores dolorosos e marcas que muitas vezes nos arrastam para trás em nosso processo de crescimento pessoal. Contudo, aprendemos com Jesus a transformar o mal em bem e a fazer da necessidade virtude. Ou seja, aprendemos e tiramos proveito também dos acontecimentos tristes e desagradáveis, transformando-os em degraus em nossa escalada até o céu.

Temos uma grande mestra em nossa vida, se queremos trilhar os caminhos de Deus, que não pode ser esquecida um dia sequer. É Maria, aquela que Jesus nos entregou como mãe quando morria na cruz. É ela quem nos toma pela mão – como o fez com Jesus menino – e nos ensina a dar os passos em nossa vida humana e em nossa vida de fé. Podemos nos entregar sem reservas a ela, pois sua mão é firme e seu ensinamento é seguro e muito atual.

Em Mt 7,15-20, Jesus nos diz que a árvore boa produz bons frutos. Olhando para toda a vida do Senhor sobre esta terra vemos apenas gestos que revelam amor. Até nos momentos de dor, de ira – como na expulsão dos vendilhões do templo -, de cansaço etc., Jesus soube apenas expressar amor. Sua ternura para com os enfermos e sofredores fazem-nos pensar em Maria que, em Nazaré, acolhia a todos que a buscavam para prestar-lhes algum pequeno serviço.

É natural que Jesus aprendesse gestos humanos de amor com sua Mãe, pois o próprio Evangelho diz que Ele ‘crescia em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens’. Jesus é amor, pois é filho de Deus e Deus é amor, como nos diz São João. Maria, por participação, também se torna amor e gerou seu “fruto”, Jesus – amor. Ela é a árvore boa que produziu este excelente fruto. Contemplando mais de perto essa árvore, podemos perceber alguns aspectos que se destacam e que podem ser para nós uma verdadeira ‘escola de amor’:

Amor a Deus

Maria foi preservada do pecado em vista da concepção de Jesus. O pecado é nosso grande “não” aos planos de Deus sobre nós. Como Maria estava isenta desse risco, toda a sua vida foi um ‘sim’ constante à vontade de Deus. Seu amor a Ele foi tão grande e puro que, conforme nos dizem os Padres da Igreja, Deus a encontrou sobre a face da terra tão aberta à sua graça que a escolheu para ser a mãe de seu Filho Unigênito. Amor gera amor, diz São João da Cruz, e isto se cumpriu na vida de Maria.

Amor filial

Detendo-nos um pouco sobre o amor de Maria para com seus pais, que a tradição chama de “Joaquim e Ana”, embora os Evangelhos nada digam a respeito, podemos encontrar uma referência nas palavras que ela diz nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Maria foi aquela filha que soube acolher as palavras de seus pais e deixar-se formar por eles.

Hoje existem formas diferentes de relacionamento entre pais e filhos e conhecemos histórias muito bonitas de amor dentro das famílias. Há mais diálogo e partilha de vida, criou-se uma maior participação dos filhos nos problemas e resoluções familiares. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido por várias famílias e o respeito e a submissão dos filhos aos pais, como o diálogo e compreensão dos pais para com seus filhos continuam sendo valores para se preservar em todos os tempos e lugares.

Amor esponsal

Este aspecto do amor na vida de Nossa Senhora é muito profundo. Ela é chamada pela Igreja de “esposa do Espírito Santo” e, como sabemos, também foi acolhida e protegida por José, seu esposo. Maria soube viver o amor humano com todas as suas expressões de ternura feminina, de entrega de si pela felicidade do lar, de atenção às necessidades de cada ente querido que lhe foi entregue, sendo, portanto, verdadeira esposa de José. Embora o amor entre eles fosse tão grande e forte, souberam oferecer a Deus – para que o Filho de Deus encontrasse total disponibilidade da parte de seus pais aqui na terra – a expressão da intimidade conjugal, tão importante na vida de todo casal que se ama.

Maria, conforme a tradição, oferecera-se a Deus pelo voto de castidade. Deus acolheu sua oferta e a preservou em sua virgindade “antes, durante e depois do parto”, e teve a delicadeza de lhe entregar como esposo José, homem justo, homem conforme o coração de Deus, que acolheu este plano sobre a vida de sua família.

Era uma família especial e ao mesmo tempo simples como qualquer outra. Maria soube ser esposa que se coloca ao lado de seu esposo em todos os momentos. Partiu com ele para Belém, depois para o Egito, retornando a Nazaré, com toda lealdade e sem dramas. Soube esquecer-se para ver seu lar feliz e em segurança. Apesar da pobreza em que viviam, soube cuidar dos seus e das coisas que, com sacrifício, conseguiam para sua casa.

A vida familiar é muito simples e bela, e os problemas que enfrentamos são desafios que a fé nos ensina a superar. Maria, sendo esposa de José, soube também ser fiel ao Espírito Santo que “veio sobre ela, cobrindo-a com sua sombra”. Diz São João da Cruz que “Maria jamais se deixou mover por criatura alguma, mas somente se deixou mover pelo Espírito Santo em sua vida”. Nela o Espírito Santo encontrou morada e plena acolhida a suas moções.

Amor fraterno

É próprio do amor tomar a iniciativa, não esperar que o outro peça ajuda, mas simplesmente se doar, gratuitamente. Quando o anjo anunciou a Maria que ela seria a mãe do Salvador, ele apenas fez referência à gravidez de Isabel sua prima. Isabel não enviou um pedido de ajuda a Maria, mas esta logo se pôs a caminho ‘às pressas’. O mesmo nas bodas de Caná, quando da falta do vinho, não foi necessário que os noivos pedissem socorro, Maria percebeu a necessidade e agiu.

Nossa vida de comunidade – quer na vida religiosa, quer na vida laical ou familiar – é rica em ocasiões para se fazer o bem. Nós vemos o bem a ser feito e, pergunto, por que não o fazemos? Por que esperar que nos peçam, mandem ou obriguem? É tão mais consolador quando podemos fazer algo em pura gratuidade, por que não nos damos esta felicidade então?

É fácil notar que vivemos num mundo de muita informação, muitas palavras, muitos cursos, capacitação, reuniões, congressos etc., mas me parece que existe uma distância que precisa ser vencida entre a palavra e a ação. É bom que nos reunamos e possamos discutir os problemas e soluções, mas é preciso a decisão de colocar em prática o que se disse.

A impressão que se tem é de que basta dizer e chegar a conclusões e pronto. Porém, isso não foi o que Maria, como nossa mestra, nos ensinou com sua vida. São poucas suas palavras registradas nos evangelhos, mas muita foi sua ação. Ela fez e fez muito. Sua maior ação foi acolher o Verbo de Deus em seu seio e gerá-lo para o mundo. Fez-se serva não só em palavras, mas soube se colocar disponível a Deus e a todos que dela precisavam. Talvez o axioma de São João da Cruz “calar e agir” esteja muito atual ainda hoje e carecendo de ser vivido em nosso amor fraterno.

A vida fraterna também é feita de gestos de ternura que se repetem e se multiplicam, em sua simplicidade, dando novo sentido e tornando concreto o amor fraterno. Não basta dizer que nos amamos, não basta rezar juntos, comer juntos, dormir sob o mesmo teto, é preciso expressar amor em gestos concretos, cuidando do outro, olhando em seus olhos, sentindo ‘com’ ele, dando-lhe tempo para que partilhe sua vida, ou seja, ouvindo-o e buscando conhecê-lo melhor, também deixando-se amar e conhecer.

É um círculo de vida que se vai criando e tornando felizes aqueles com quem convivemos. Olhando a ternura com que Maria esteve no cenáculo com os apóstolos em oração, sua vida em Nazaré ou na comunidade primitiva, é impossível não tirar lições de vida fraterna que sustentem nossa caminhada comunitária…

Amor fiel

O amor se prova nos momentos de crise. Amar uma pessoa que está bem, que é bem-sucedida, tem saúde, está de bem com você e com a vida é fácil, até os ateus fazem. Agora, amar quem está mal, perdeu todos os seus bens, ou está doente e precisa de sua presença amiga, ou mesmo que, por algum motivo, não correspondeu à sua expectativa, isto sim é amor de verdade. Amar um viciado, um alcoólatra, uma pessoa que está destruindo sua vida, um condenado… aí está o amor em toda a sua gratuidade. Maria amou seu Filho até o fim. Quando todos o abandonaram, quando Ele era tido como malfeitor e ia ser executado por isso, quando ela corria risco por estar do lado dele naquele momento, Maria estava lá, de pé, com dignidade e força. Sofria mas não se desesperava, e sua presença ali, com certeza, foi uma grande força para Jesus. Quem ama não tem medo de nada nem de ninguém. Está disposto a dar a vida pela pessoa amada.

Amor transcendente

Finalmente vejo Maria como mestra de um amor transcendente, um amor que ultrapassa os limites do tempo e do espaço. São Paulo já dizia que “a caridade jamais passará”, e vemos o amor de Maria tão imensamente profundo que transbordou pelos dois milênios de história e chega até nós, com perspectiva de chegar até o fim dos tempos, quando o Senhor voltar em glória.

Se amamos, temos esta convicção de não nos limitarmos a este determinado lugar ou espaço, o amor nos dá asas e nos faz voar, nos dá condições de sermos um com a pessoa amada ainda que esta esteja distante.

O amor é unitivo e esta unidade transcende o nosso ser e a própria razão para chegar ao outro. Este amor vemos em Maria, orante. Ela viveu uma profunda comunhão de amor com Deus na oração. Como nossa Mestra, olhemos para a intimidade de seu coração, todo aberto ao Espírito Santo, todo atento ao menor toque de Deus sobre si e sobre os que a rodeiam. Só uma comunhão constante com o Senhor poderia capacitá-la para viver sua missão de Mãe do Redentor e Mãe da Igreja. Quando Deus nos entrega uma missão Ele nos prepara, nos educa a ela, e isto se dá primeiramente na oração, e numa oração de total entrega e atenção amorosa a Ele.

Conclusão

Contemplando Maria como nossa mestra de amor, vemos como ainda estamos longe de amar como o Senhor quer que amemos, mas ao mesmo tempo temos a segurança de não caminharmos sozinhos nesta aventura. A vida adquire novo sentido quando nos decidimos a amar e a deixar-nos amar. Nunca nos esqueçamos desta mestra que pode nos ensinar muito a amar de forma concreta e eficaz a quem se aproxima de nós.

fonte: Comunidade Shalom

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