Homilia do Arcebispo de Moscovo em Fátima (13/10/2011)

Excelência reverendíssima Dom António [Augusto dos Santos] Marto, bispo de Leiria-Fatima!

Excelências reverendíssimas!

Caros irmãos no sacerdócio!

Caros irmãos e irmãs!

Na primeira leitura de hoje, ouvimos novamente a narração da vocação de Samuel, o grande vidente de Israel, chamado por Deus para vigiar sobre a delicada passagem do povo de Deus a um novo período da sua história: a época dos grandes Reis. O trecho que ouvimos inicia com uma nota de tristeza, de profunda saudade: “O Senhor, naquele tempo – escreve o autor sagrado – falava raras vezes”. Isto significa, na linguagem bíblica, que havia falta de profetas, porque a profecia era a maneira habitual com que Deus continuava a falar ao seu povo: pela voz dos profetas, o Senhor permanecia uma Presença Viva, capaz de intervir e dialogar com o seu povo sobre os acontecimentos presentes, concretos, da vida do povo. Graças aos profetas a Aliança com Deus não se reduzia à observância da Lei que Deus tinha entregue a Moisés no Sinai. Não, Deus não se tinha afastado de Israel, deixando-o a cumprir uma série de preceitos: Ele permanecia presente, continuava a interessar-se pelo seu povo, e precisamente através da voz dos profetas, através das imagens e dos tons das suas palavras, Deus fazia sentir a Israel quanto era real e sério o seu interesse pelo povo da Aliança.

Eis a razão pela qual a ausência dos profetas era para Israel um sinal de extravio. Será que Deus se esqueceu de nós? Há de facto momentos na história nos quais se pode ter a impressão que Deus se esqueceu do homem. Momentos em que Deus “fica em silêncio”, e a sua voz parece ausente ou abafada por outras. Devemos constatar que é verdade: há momentos na história nos quais o Senhor, por assim dizer, fica em silêncio. Mas isto não significa que se esqueça do homem! Na realidade, também o silêncio de Deus é uma palavra. Melhor – come dizia Inácio de Antioquia – mesmo os mistérios mais “retumbantes” Deus pronunciou-os no silêncio: a Conceição Virginal, a Incarnação, a Ressurreição … as palavras mais sonoras pronunciou-as no silêncio. E assim, do mesmo modo, também na nossa vida, também na nossa história o silêncio de Deus é sempre carregado de Logos, de palavra, isto é, de significado.

Mas qual? Antes de mais, já o entrevimos meditando sobre a tristeza que transparece das palavras do autor sagrado. Por que se cala Iavé? Porque não foi Ele mas sim o seu povo que esqueceu-se dele. E assim, precisamente afastando-se, Iavé educa Israel a perceber quanto precisa do Senhor, quanto o povo se vai abaixo se com o coração se afasta dele. Eis então que com o seu silêncio o Senhor nos fala, antes de mais, porque nos faz tomar consciência da necessidade que temos dele. A tristeza, o vazio que toma posse do coração de quem está longe de ti, ó Senhor, é precisamente a primeira palavra com a qual Tu nos chamas, como escreveu de maneira insuperável Agostinho: Fizestes-nos para Ti, ó Deus, e o nosso coração está inquieto enquanto não encontra em Ti a verdadeira paz”.

Mas aquela expressão – “O Senhor, naquele tempo, falava raras vezes” – além de nos falar da inapagável saudade de Deus que habita no coração do homem, sugere-nos também quanto é importante na nossa vida, mesmo nos momentos em que Deus parece ficar em silêncio, a recordação, a memória das palavras que Deus já nos disse. E deste modo, precisamente no silencio descobrimos antes de mais o valor daquela palavra que nunca falha, aquela palavra silenciosa que Ele nos dirige em cada instante, com o próprio facto de nos criar a partir do nada, com o próprio facto de nos renovar no nosso ser em cada instante. Sim, é paradoxalmente no silêncio, quando Deus nos deixa sem outras palavras, que podemos ouvir esta palavra que Ele sussurra nas raízes mais profundas do nosso ser, mas que geralmente não ouvimos, distraídos por causa de muitas outras palavras que parecem mais autênticas e importantes.

E em seguida, depois deste acto de memória, que podemos chamar primordial, existe a memória de todas as outras palavras que Deus nos disse, a memória de toda a história, cheia de acontecimentos, pessoas, rostos, através dos quais o Senhor falou à nossa vida.

A lembrança de Deus! Se nós não cultivamos a recordação de Deus, a memória das palavras que Deus nos disse e continua a dizer no concreto da nossa vida quotidiana, o nosso ser, sem nos apercebermos, enfraquece, atrofia-se, perde o próprio rosto: porque toda a força e a certeza do homem está na memória da Aliança com o Deus fiel.

O trecho da Carta de Tiago que ouvimos leva-nos a dar mais um passo: se a escuta da palavra, o dar em nós o espaço para a escuta é a primeira e fundamental tarefa, é necessário também que a palavra de Deus, uma vez ouvida, seja praticada. Na realidade entre escutar e praticar, entre fé e obras, não há nenhuma oposição nas palavras de São Tiago. Antes, existe uma continuidade: a memória de Cristo – porque Cristo é a Palavra “resumida”, a Palavra em que todas as palavras de Deus se resumem – a memória de Cristo, vivida com fidelidade, torna-se de facto irresistivelmente fermento de mudança da nossa personalidade, impulso para uma nova vida. Um impulso tão irresistível que – como nota São Tiago – só um voluntário e deliberado esquecimento, só a recusa da própria lembrança nos faz parar no processo de mudança. Como um homem que depois de se olhar ao espelho e de ter visto quem é, e de imediato se esquece inexplicavelmente do próprio rosto, assim nos acontece a nós. A razão pela qual a nossa vida parece não se transformar é mesmo esta: a estranha falta de memória, o esquecimento do nosso verdadeiro rosto, que descobrimos só quando olhamos aquele espelho verdadeiro que é o rosto do Senhor, e nos vemos reflectidos no seu olhar, que nos revela a nós mesmos. Quanto mais eu vivo a memória, a recordação de quem sou aos olhos do Senhor, tanto mais a minha vida se transforma, ao passo que o esquecimento deixa cair a força de lutar, de construir, e leva, enfim, a perder o gosto de viver.

De facto, não é por acaso que todo o poder totalitário – e a nossa história recente o demonstra tragicamente – teve como fim principal precisamente este: o de remover no povo a memória, a recordação viva da própria história, e especialmente quanto desta história está ligada à dimensão religiosa. Pois é na memória da ligação ao Absoluto, ao Mistério de Deus, que reside ultimamente a raiz da liberdade dos homens em relação a qualquer poder mundano, e por isso mesmo é esta ligação que o poder deste mundo tem interesse em cortar arrancando-o das consciências. O que o poder deste mundo odeia é mesmo a religiosidade, ou seja, a vida vivida como relação com o Mistério de Deus, como resposta ao Mistério de Deus, Senhor da história.

Para voltarmos ao acontecimento de Samuel, que ouvimos na primeira leitura, poderíamos dizer: é a vida vivida como religiosidade que é vocação, isto é, resposta a Deus que chama.

Deus chama-nos: chama-nos à existência dando-nos a vida, e depois chama-nos a servi-lo para colaborar na realização do seu desígno sobre a História. Esta é a verdadeira essência da vida: responder a Deus que nos chama: “Falai, Senhor, que o vosso servo escuta”; “Eis-me aqui, sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra” (cfr. Lc 1,38), dirá Maria ao Anjo; e nestas palavras está contido tudo aquilo que é essencial para tornar uma vida realizada, cheia de graça, bem-aventurada: “Salve, ó cheia de graça”, diz de facto o Anjo a Maria. E Ela mesma, na visita a Isabel dirá: “… chamar-me-ão bem-aventurada todas as gerações…” (cfr. Lc 1,28.48).

E nós, hoje, vindo aqui em peregrinação estamos a confirmar uma vez mais que a profecia de Maria é verdadeira. Nós hoje damos o nosso contributo para testemunhar que aquela profecia continua a ser verdadeira: chamar-te-ão bem aventurada.

Nós te agradecemos, ó Virgem, porque voltando para Ti os nossos olhos, nós hoje contemplamos uma vez mais, com admiração e encanto, o essencial para que também a nossa vida se realize: não recusar ao Senhor que chama, o nosso fiat, o nosso sim total.

A este coração do mistério de Maria nos apelam as palavras de Jesus que ouvimos no Evangelho: quem cumpre a vontade de Deus, quem “acolhe e guarda no seu coração” (cfr. Lc 2,19.51) a Palavra de Deus, esse torna-se íntimo do Senhor. Fazendo nossa, acolhendo a vontade de Deus, entramos na intimidade da relação com Deus ou, como diz Tiago, encontramos a felicidade, a realização da nossa vida em caminho.

De Nossa Senhora nós aprendemos isto. Aprendemos a viver a vida como pertença a Deus, ao Mistério Vivo de Deus.

Perguntemo-nos agora: como é que Maria viveu esta pertença a Deus? Os Evangelhos não nos contam os detalhes. Mas alguma coisa podemos dizer com certeza: Nossa Senhora viveu a própria pertença a Deus no concreto das tarefas quotidianas que tinha para fazer. Nas pequenas ou menos pequenas decisões que tinha para tomar: isto era, para Nossa Senhora, pertencer a Deus de modo concreto. E isto para nós significa: o pertencer da nossa vida a Deus tem que se desenvolver nas circunstâncias quotidianas: no trabalho, no estudo, em tudo o que fazemos, quer o que queremos, quer o que temos para fazer, na fatiga e na alegria.

Se, seguindo Maria, vivermos a memória vigilante, activa, do facto de a nossa vida ser chamada por Deus e que em cada coisa que nos é dado viver estamos a responder a Deus: quando formamos uma família, quando vamos para o trabalho, quando enfrentamos alguma coisa no nosso dia, quando respondemos ao apelo à virgindade, quando entramos no seminário, no mosteiro…, então apercebemo-nos que é mesmo respondendo ao chamamento que Deus nos faz que cumprimos o nosso desejo de vida, bem além das nossas previsões, percebemos que nos tornamos fecundos, que estamos também nós entre aqueles que edificam o povo de Deus, que somos também nós mães, irmãs e irmãos de Jesus. E que nobreza e gosto de vida sentiremos na nossa existência!

“Os cristãos – disse o Papa Bento XVI na homilia da última Missa Crismal – deveriam tornar visível ao mundo o Deus vivo, testemunhá-Lo e levar até Ele. Somos nós verdadeiramente o santuário de Deus no mundo e para o mundo? Abrimos aos homens o acesso a Deus ou, pelo contrário, escondemo-lo? Porventura nós, povo de Deus, não nos tornamos em grande parte um povo marcado pela incredulidade e pelo afastamento de Deus? Porventura não é verdade que o Ocidente, os países centrais do cristianismo se mostram cansados da sua fé e, enfastiados da sua própria história e cultura, já não querem conhecer a fé em Jesus Cristo? Neste momento, temos motivos para bradar a Deus: «Não permitais que nos tornemos um “não povo”! Fazei que Vos reconheçamos de novo! Fazei que a força do vosso Espírito se torne novamente eficaz em nós, para darmos com alegria testemunho da vossa mensagem!».

Mas, apesar de toda a vergonha pelos nossos erros, não devemos esquecer que existem hoje também exemplos luminosos de fé; pessoas que, pela sua fé e o seu amor, dão esperança ao mundo”.

E o Papa recordou então o Beato João Paulo II, o “grande testemunha de Deus e de Jesus Cristo no nosso tempo, como homem cheio do Espírito Santo” (cfr Bento XVI, Homilia na Missa Crismal 22-04-2011). Em João Paulo II, tão ligado a Nossa Senhora, – Totus Tuus – tivemos um testemunho vivo de um “sim” total e livre à vontade de Deus. O “sim” de João Paulo II é no mundo contemporâneo o eco do “sim” de Nossa Senhora.

Antes de concluirmos, voltemos por um instante àquele momento, ao mistério daquele momento no qual Maria pronunciou o seu “sim”, o seu fiat. O que aconteceu naqueles poucos instantes? No mistério daquele momento, Nossa Senhora teve que intuir que se tratava de um verdadeiro anúncio de Deus. Que através do Anjo era verdadeiramente Deus a falar-lhe. A perturbação de que Lucas nos fala diz-nos que, de certo, nem tudo devia ser claro para Maria. Mas esta intuição foi clara. Assim acontece também em nós. De facto, nenhum de nós é cristão, senão porque de algum modo, por graça, intuiu que Cristo é verdadeiro, a Igreja é verdadeira, o mistério cristão é verdadeiro. Todos tivemos esta intuição.

Então, onde está a grandeza de Nossa Senhora? Na sua simplicidade: Ela disse: “Sim”, e basta. Nós, ao contrário, precisamos sempre de algo diferente. Somos mais complicados. Como se diante da evidência, do poder dos sinais que Deus nos dá para nos ajudar a pronunciar o nosso “sim”, nós encontrássemos sempre razões para sermos cépticos. Maria também podia encontrar razões para ser céptica. Pensemo-la por um instante, permaneceu sozinha em casa, depois de o Anjo se retirar de junto dela: sozinha diante daquela promessa inaudita que tinha há pouco recebido. Poderia ter dito: “Talvez seja uma ilusão!

E se fosse uma ilusão?” Quantas vezes, diante de umas primeiras dificuldades, dizemos: “não foi verdade, foi uma ilusão!”. Maria está sozinha, também ela tem as suas dificuldades, mas é decidida e fiel. A sua é uma simplicidade cheia de muita força porque permanece fiel, porque se apoia na fidelidade de Deus. Deus é fiel. Até Abraão vacilou, Moisés tremeu. Maria ao contrario é firme, mesmo na solidão. Maria é uma fortaleza, grande e simples.

Também Bernadette em Lourdes, Lúcia e os Pastorinhos aqui em Fátima experimentaram a mesma solidão, mas foram sustentados pela mesma certeza, foram fiéis.

Peçamos a Nossa Senhora que nos sustente como os sustentou a eles.

Peçamos-lhe que nos ajude na peregrinação, na nossa decisão de caminhar atrás de seu Filho. Peçamos-lhe que nos faça permanecer na lembrança de seu Filho, aquela memória que nela foi dimensão de cada respiro, alma de cada instante.

Ámen.

D. Paolo Pezzi, arcebispo de Moscovo

 

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