São Francisco de Assis – Capítulo 14

CAPÍTULO 14

Após ter obtido do mencionado abade o referido lugar de Santa Maria, ordenou o bem-aventurado Francisco que ali se realizasse o capítulo duas vezes por ano: em Pentecostes e na dedicação de São Miguel. Em Pentecostes reuniam-se todos os irmãos em Santa Maria, discutiam a maneira como podiam observar melhor a Regra, designavam os irmãos que nas diversas províncias pregassem ao povo e colocassem os outros frades em suas províncias. São Francisco fazia admoestações, repreensões e preceitos, como lhe parecia de acordo com o conselho do Senhor. Mas tudo que lhes dizia por meio de palavras, mostrava-o afetuosa e solicitamente com obras. Venerava os prelados e sacerdotes da Santa Igreja, honrava também os mais velhos, nobres e ricos, mas amava os pobres compadecendo-se deles e a todos mostrava-se submisso. Mesmo estando acima de todos os irmãos, constituía um dos frades que morava com ele como seu guardião e senhor, obedecendo-lhe humilde e devotamente para afastar de si toda ocasião de soberba. Pois entre os homens humilhava sua cabeça até o chão para merecer, algum dia, ser exaltado entre os santos e eleitos de Deus, na presença divina.

Admoestava com solicitude os irmãos a observarem cuidadosamente o santo Evangelho e a Regra que haviam prometido observar firmemente, e especialmente que fossem reverentes e devotos no que diz respeito aos ofícios divinos e às ordenações eclesiásticas, ouvindo devotamente a missa e adorando o Corpo do Senhor com toda a devoção. Advertia também os irmãos para não julgarem homem algum nem desprezarem os que vivem na moleza e se vestem curiosa e superfluamente: “pois Deus é Senhor nosso e deles, e tem o poder de chamá-los a si e torná-los justos”. Dizia também que queria que os irmãos os reverenciassem porque eles são irmãos enquanto criados pelo mesmo Criador, e são senhores enquanto ajudam os bons a fazer penitência, ministrando tudo o que é necessário ao corpo. E, dizendo essas coisas, acrescentava: “A vida dos irmãos entre os homens deveria ser tal que todo aquele que os visse e os escutasse, glorificasse e louvasse o Pai celeste”. Era seu grande desejo que ele e seus irmãos fossem tão abundantes em boas obras, que por elas o Senhor fosse louvado, e dizia-lhes: “Como anunciais a paz com a boca, assim deveis possuí-la ainda mais em vossos corações. Ninguém seja por vós provocado à ira ou ao escândalo, mas todos, por vossa mansidão, sejam levados à paz, à bondade e à concórdia. É para isso que fomos chamados, para curar os feridos, reanimar os abatidos e trazer de volta os que estão no erro. Pois muitos que agora parecem seguidores do diabo ainda virão a ser discípulos de Cristo”.

O piedoso pai também corrigia os irmãos que eram demasiadamente austeros consigo mesmos, suando excessivamente em vigílias, jejuns e exercícios corporais. Os irmãos que iam ao capítulo não tratavam de negócios seculares, mas confabulavam acerca das vidas dos Santos Padres e como poderiam encontrar a graça do Senhor Jesus Cristo melhor e mais perfeitamente. Se alguns dos irmãos que compareciam ao capítulo sofriam tentações ou tribulações, eram libertados das tentações e venciam maravilhosamente as tribulações ouvindo o bem-aventurado Francisco falar tão suave e fervorosamente e vendo a sua penitência. Repreendia, entretanto, todos os delinquentes e reprimia os contumazes e rebeldes. Terminado o capítulo, abençoava a todos os irmãos e destinava cada um às diversas províncias.

A quem tivesse o Espírito de Deus e eloquência necessária para pregar, fosse clérigo ou leigo, dava-lhe a devida permissão. Eles, recebendo sua bênção com grande júbilo do espírito, como peregrinos e estrangeiros, iam pelo mundo, nada levando pelo caminho, a não ser os livros. Em qualquer lugar que encontrassem um sacerdote, rico ou pobre, bom ou mau, inclinando-se humildemente faziam-lhe uma reverência.

Quando não conseguiam hospedagem junto aos sacerdotes, buscavam os homens mais religiosos e tementes a Deus, com os quais encontrassem alojamento mais conveniente, isso até o tempo em que se construíram lugares para eles nas cidades e aldeias. O Senhor lhes deu oportunamente palavra e espírito para proferir palavras que penetravam os corações dos jovens e dos velhos, os quais, deixando pai e mãe e tudo que tinham, seguiam os frades, assumindo o hábito de sua religião.

Por meio do bem-aventurado Francisco, adorador perfeito da Santíssima Trindade, a Igreja de Deus foi renovada com três Ordens, conforme prefigurava a reforma das três igrejas. E cada uma dessas Ordens, em seu devido tempo, foi confirmada pelo Sumo Pontífice.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (Franciscanos.org.br)

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