São Francisco de Assis – Capítulo 12

CAPÍTULO 12

Vendo o bem-aventurado Francisco que Deus fazia crescer seus irmãos em número e mérito, sendo eles já doze homens e tendo os mesmos sentimentos, disse aos onze: “Vejo, irmãos, que Deus, por sua misericórdia, quer que nossa congregação cresça. Vamos, pois, à Santa Igreja Romana, notifiquemos ao Sumo Pontífice o que o Senhor começou a fazer por nosso intermédio, a fim de que, conforme a sua vontade e ordem, continuemos o que começamos”. Como tivesse agradado aos outros frades o que foi dito pelo pai e tivessem começado com ele o caminho para a cúria, disse-lhes: “Façamos um de nós como nosso guia, e o tenhamos como representante de Jesus Cristo. Aonde for, para lá iremos. Elegeram Frei Bernardo, o primeiro após o bem-aventurado Francisco, e observaram o que o pai lhes dissera. Caminhavam contentes, falando palavras do Senhor, não se atrevendo a falar outra coisa a não ser o que fosse para louvor e glória de Deus e utilidade da alma e, frequentemente, se entregavam à oração. O Senhor sempre lhes preparava hospedagem, fazendo com que lhes dessem o necessário.

Quando chegaram a Roma e ali encontraram o bispo da cidade de Assis, foram recebidos por ele com grande alegria, pois o venerava o bem-aventurado Francisco e todos os frades com especial afeto. Não conhecendo a razão da sua vinda, começou a perturbar-se, pensando que quisessem abandonar a sua pátria, onde o Senhor começara, através deles, a operar maravilhas. Mas tendo ouvido o motivo e entendido seu propósito, muito se alegrou, prometendo-lhes conselho e auxílio no empreendimento. Era esse bispo conhecido de certo cardeal, bispo de Sabina, que se chamava Dom João de São Paulo, verdadeiramente cheio da graça de Deus, muito amigo dos servos de Deus. O bispo de Assis contara-lhe a vida do bem-aventurado Francisco e de seus irmãos, e por isso desejava ardentemente ver o homem de Deus e alguns de seus companheiros. Ouvindo que estavam em Roma, mandou chamá-los e os recebeu com grande reverência e amor.

Pediu, como uma graça especial, que desejava ser considerado como um dos irmãos. Enfim, perguntando ao bem-aventurado Francisco por que viera, e ouvindo dele todo seu propósito e intenção, ofereceu-se como seu procurador na Cúria. Dirigiu-se, pois, o referido cardeal à Cúria e disse ao Senhor Papa Inocêncio III: “Encontrei um homem perfeitíssimo que pretende viver segundo a forma do santo Evangelho e observar em tudo a perfeição evangélica. Creio que por meio dele Deus quer reformar no mundo inteiro a fé da Santa Igreja”. Ouvindo isto, o Senhor Papa ficou muito admirado e mandou ao cardeal que lhe trouxesse o bem-aventurado Francisco. No dia seguinte, o homem de Deus foi apresentado pelo cardeal ao Sumo Pontífice, a quem tornou patente todo seu santo propósito. O Pontífice, como era notável por sua discrição, concordou, no devido modo, com os desejos do santo e, exortando a ele e aos seus irmãos acerca de muitas coisas, abençoou-os dizendo: “Ide com o Senhor, irmãos, e assim como ele se dignar inspirar-vos, pregai a penitência a todos. E quando Deus onipotente vos multiplicar com maior número e graça, no-lo referireis, e nós vos concederemos mais do que isso, encarregando-vos de coisas mais importantes”. Desejando, porém, o Senhor Papa saber se o que havia concedido e o que havia de conceder era conforme a vontade do Senhor, antes que o santo se despedisse, disse a ele e aos seus companheiros: “Filhinhos nossos, a vossa vida nos parece muito dura e áspera, embora acreditemos que tendes tamanho fervor que não podemos duvidar de vós, mas temos que pensar naqueles que haverão de seguir-vos, para que esse caminho não lhes pareça áspero demais”. Vendo que, pela constância de sua fé e pela âncora da esperança firmemente robustecida em Cristo, não queriam retroceder em seu fervor, disse ao bem-aventurado Francisco: “Filho, vai e pede a Deus que te revele se o que vós procurais procede de sua vontade, porquanto, sabendo a vontade do Senhor, daremos nosso consentimento aos teus desejos”.

Orando o santo de Deus, conforme o papa lhe havia sugerido, falou-lhe o Senhor Deus em espírito por esta semelhança: “Certa mulher pobrezinha e formosa vivia num deserto. Um grande rei, admirando-lhe a beleza, desejou recebê-la como esposa, julgando que teria lindos filhos dela. Contraído e consumado o matrimônio, nasceram e ficaram adultos muitos filhos, aos quais a mãe falou: ‘Filhos, não vos envergonheis, porque sois filhos do rei! Ide pois a sua corte e ele vos dará tudo o que vos é necessário’. Quando chegaram diante do rei, este ficou admirado com a sua beleza, e reconhecendo neles a própria semelhança, perguntou-lhes: ‘De quem sois filhos?’ Quando responderam que eram filhos da mulher pobrezinha que morava no deserto, o rei abraçou-os com grande júbilo, e disse-lhes: ‘não temais, pois vós sois meus filhos. Se em minha mesa alimentam-se estranhos, muito mais vós que sois meus filhos legítimos’. E mandou dizer à mulher que enviasse a sua corte todos os filhos que dele tivera, para serem alimentados”. Como essas coisas foram mostradas em visão ao bem-aventurado Francisco, que estava em oração, o homem santo entendeu que ele era designado por aquela mulher pobrezinha.

Quando acabou de rezar, apresentou-se de novo ao Sumo Pontífice e contou-lhe em ordem o exemplo que o Senhor lhe mostrara. E disse: “Eu sou, senhor, aquela mulher pobrezinha que Deus, amando, tornou formosa por sua misericórdia e houve por bem gerar dela filhos legítimos. Disse-me, pois, o Rei dos reis que alimentará a todos os filhos gerados por meu intermédio, porque, se ele nutre os estranhos, bem que tem que nutrir os filhos legítimos. Se, de fato, Deus dá os bens temporais aos pecadores por amor dos filhos que eles devem nutrir, muito mais dará em abundância aos homens evangélicos, aos quais se devem estas coisas por seu mérito”. Ao ouvir isso, o Senhor Papa muito se admirou, especialmente porque, antes da vinda do bem-aventurado Francisco, ele tivera uma visão na qual a igreja de São João do Latrão ameaçava ruir e um homem religioso, franzino e desprezível, a sustentava com seus ombros. Despertando, estupefato e amedrontado, como homem sábio e prudente que era, considerava o significado da visão. Mas, poucos dias depois, quando veio a ele o bem-aventurado Francisco e lhe revelou seu propósito, como foi dito, e lhe pediu que confirmasse a Regra que havia escrito com palavras simples e usando expressões do santo Evangelho, o Senhor Papa, vendo-o tão fervoroso no divino serviço e fazendo uma comparação entre a sua visão e a parábola que o homem de Deus lhe havia contado, começou a refletir: “Na verdade, este é o homem religioso e santo, por meio do qual a Igreja de Deus será levantada e sustentada”. E assim abraçou-o e aprovou-lhe a Regra que havia escrito.

Concedeu também a Francisco e a seus irmãos permissão para pregar a penitência em qualquer lugar. Aqueles, porém, que desejassem pregar deveriam primeiro obter a licença do bem-aventurado Francisco. E mais tarde aprovou isso mesmo num consistório. Depois de alcançar essas coisas, o bem-aventurado Francisco deu graças a Deus e, de joelhos, prometeu ao Senhor Papa obediência e reverência, humilde e devotamente. Os outros irmãos, conforme o preceito do Senhor Papa, prometeram da mesma forma obediência e reverência ao bem-aventurado Francisco. Assim, tendo recebido a bênção do sumo pontífice e visitado os túmulos dos Apóstolos, Francisco e os onze irmãos receberam a tonsura, como predispusera o cardeal de quem acima se falou, pois queria que todos os doze fossem clérigos.

Deixando Roma, o homem de Deus partiu para o mundo com seus irmãos, muito admirado da fácil consecução de seu desejo e crescendo todos os dias na esperança e na confiança do salvador.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (Franciscanos.org.br)

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