Meditação 1º Sábado de Outubro/2011

Anunciação do Anjo e a Encarnação do Verbo

Introdução:

Vamos prender nossa imaginação na cena incomparável: em Nazaré, a Virgem Santíssima numa casinha pequena, modesta, limpíssima e colocada em inteira ordem, numa simplicidade toda divina. No chão, um vaso ingênuo no qual estão plantados lírios, flor que é símbolo de Nossa Senhora. Sentada tranquilamente num banquinho, Ela tem um livro de meditação na mão. Ali numa paz profunda, a modesta Virgem de Nazaré rezava; um Embaixador excepcional, o Arcanjo Gabriel portando a missão-chave da História da humanidade, nuncia-lhe o augusto mistério da Encarnação. Inclinando-se respeitosamente diante de sua Rainha, o semblante iluminado por um gáudio sobrenatural, disse-lhe: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois Vós entre todas as mulheres”.

Oração inicial:

Ó Virgem Santíssima, o Anjo São Gabriel apareceu trazendo-Vos uma notícia extraordinária, uma notícia excelente. Notícia, impossível melhor; imaginar algo mais além desta mensagem seria impossível. Entretanto Vós vos conservastes em recolhimento, humildemente. Vós estivestes inteiramente posta nas mãos de Deus, e é isso que nós queremos neste momento em que damos inicio a esta meditação de Primeiro sábado. Queremos estar como Vós estáveis, em Nazareth, em vosso quarto, recolhida e em silêncio rezando. Nós queremos estar em espírito de oração como Vós. E por isso nós Vos pedimos ó Mãe que nos concedais participar da luz da vossa piedade, da luz do vosso recolhimento, da luz da vossa humildade para bem considerarmos o mistério da Anunciação; e assim podermos com propriedade, com substância, reparar o vosso Sapiencial e Imaculado Coração de tantas e tantas ofensas que recebe nos dias de hoje.

Pe dimos, ó Mãe, que ilumineis nossa inteligência, fortaleçais nossa vontade e ampareis nossa sensibilidade — tempereis nossa sensibilidade — para que todo o nosso ser seja posto nesta contemplação do anúncio, que Vos fez o Anjo São Gabriel no momento em que se deu a Concepção de Nosso Senhor Jesus Cristo, no momento em que a Encarnação se fez. Minha Mãe, esta meditação é para desagravar ao Vosso Sapiencial e Imaculado Coração. Amém.

Ave Maria, cheia de graça…

I – Recolhimento e oração da Virgem Imaculada

 Nossa Senhora, jovem, deveria ter aproximadamente seus 15 ou 16 anos, está em oração e recolhida. Rezando, porque antes de tudo Ela é criatura, e toda criatura necessita de oração. Ela reza pedindo por si, pela humanidade; contemplando a situação do mundo naquele tempo, e o seu futuro. Ela sabia perfeitamente quais eram os dramas, e as consequências terríveis do Pecado Original; Ela queria o quanto antes que houvesse a Redenção. Ela conhecia com o dom de Ciência e Sabedoria — pois Ela tinha estes dons em altíssimo grau — a origem do pecado já no Paraíso Terrestre, pela negação e pela desobediência de Adão e Eva. Em consequência, tinha Maria verdadeiro horror, indignação, inteira incompatibilidade com o pecado; Ela queria que houvesse quanto antes a vinda do Redentor, para que tudo se pusesse em ordem. E sabia perfeitamente que isso só se obteria através da oração. Ela, por isso, rezava, e disso tinha necessidade. Nosso Senhor também rezou, e quantas vezes. Ele não precisava da oração, mas Ele rezava, e rezava por todos nós. Maria, nossa Mãe, rezava pedindo a nossa salvação.

Então nós vemos uma característica lindíssima nessa Anunciação: é o recolhimento e a oração. Exemplo para nós de quanto é conveniente que nós estejamos em oração, porque é na oração que Deus se comunica conosco. O Anjo aparece fazendo um elogio extraordinário, elogio que daria para deixar orgulhoso qualquer um. “E, entrando o Anjo onde ela estava, disse-lhe: Deus te salve, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres”. Ou seja, o Anjo elogia Nossa Senhora dizendo que Ela é a mais alta figura dentre todas as mulheres.

Como nos comportaríamos se o Anjo nos elogiasse?

 Nós sabemos perfeitamente como age em nós o orgulho, como age em nós a vaidade, como age em nós o amor-próprio e, se aparecesse um Anjo para um ou uma de nós no quarto, enquanto este ou esta rezava, e o Anjo fosse São Gabriel cheio de luz —maravilha! — iluminaria o quarto inteiro, sentir-se-ia até o odor de um perfume extraordinário, e ele dissesse nada mais nada menos para nós homens, que somos o primeiro entre todos, ou então, para uma mulher: sois a mais alta criatura, a mais excelente de todas as mulheres… Como nós tomaríamos um elogio destes? Seria um elogio que nos colheria de surpresa e nos deixaria pasmos, mas ao mesmo tempo nosso amor-próprio, nosso orgulho, nossa vaidade, nosso desejo de aparecer, nosso desejo de ser o primeiro, a primeira, tomariam um grau de calor extraordinário dentro de cada um de nós. Nós ficaríamos rachando de orgulho.

No entanto, o que aconteceu com Nossa Senhora ao ouvir esse elogio? Qual foi a reação Dela? São Lucas nos diz: “turbou-se com as suas palavras, e discorria pensativa que saudação seria esta”.

Olhemos para Ela. Não é verdade que Ela merece este elogio? Pois claro!Puríssima, virginalíssima, virtuosíssima, santíssima — Ela merecia este elogio. E se não houvesse outra razão, bastaria que o Anjo dissesse, e se este disse, é porque foi enviado por Deus para dizê-lo — “Anjo”, significa mensageiro de Deus — e o Anjo falou, é isto! Ora, a aparição de um Anjo era tida como prenúncio da morte. E todos aqueles a quem aparecia um Anjo se assustavam e, assim foi que aconteceu com Zacarias, esposo de Santa Isabel. Zacarias quando viu o Anjo ficou em pânico e pensou que fosse morrer. Nossa Senhora não se assusta com a aparição do Anjo, Ela era tão extraordinária que tinha um convívio com os Anjos, mas nada disso levava Nossa Senhora a se considerar como a primeira das mulheres.

* * *

II – Despretensão e humildade completa

 Ela, ao invés de pensar: “Então, quer dizer que eu sou a primeira entre todas as mulheres!”, ao invés de Ela ficar contente, cheia de si, turbou-se. Ficou perturbada porque tinha medo de ofender a Deus atribuindo a si qualquer coisa que não lhe pertencesse; e sim, pertencia a Deus. Receio de consentir em ter a complacência de se julgar a primeira das mulheres. Como seria bom se nós nos perturbássemos quando fôssemos elogiados. Maria nos dá esse exemplo. Anunciação: Ela nos dá um exemplo4 extraordinário, porque se perturbou ao ouvir este elogio, e diz o texto de São Lucas: “turbou-se com as suas palavras, e discorria pensativa que saudação seria esta”. Como é que é isso? Um Anjo me aparece e diz isso?

Ponto de reflexão: Convivendo com o espelho!

 Nós que temos um convívio não com os Anjos, mas tantas vezes com o espelho. Nós que parecemos diante do espelho e ficamos conversando com o espelho e, quantas e quantas vezes o espelho não mente dizendo que nós somos o primeiro dos homens ou a primeira das mulheres? O espelho mente, mas nós acreditamos facilmente no que nos diz o espelho. E Nossa Senhora se perturba, e fica se pondo o problema: “O que é que quer dizer isso? De onde é que saiu esta saudação? De onde vem isso? Eu de minha natureza não sou nada. Eu sou vazia. Eu sou a escrava do Senhor. Eu não tenho nada de mim mesma que valha alguma coisa. Eu nunca consegui nada por mim mesma, tudo vem de Deus. Agora, vem este Anjo dizer que eu sou a primeira das mulheres”. Que humildade! No ‘Magnificat’ Ela cantou: “Porque Deus lançou os olhos sobre a humildade da sua serva…”. O Anjo vai continuar o elogio. O Anjo lhe diz: “Não temas, Maria”… Não temas o quê? Não é ao Anjo, porque ele está ali e Ela em nenhum momento teve temor dele. Ela tinha medo das palavras, porque tinha medo de perder a humildade, tinha medo de apropriar-se de algo de Deus. O Anjo vai tranqüilizá-la: ‘Pois encontrastes graça diante de Deus’. “Ah bom! Se é por uma ação de Deus, por uma ação da graça, e não por mim mesma que obtive e sim porque Deus teve misericórdia, Deus contemplou a minha miséria, Deus contemplou o meu nada; aí eu fico tranquila, porque já não sou Eu, já não vem de mim. Não é algo que eu possa dizer “eu sou”. “Se há algo de bom em mim, esse algo de bom vem de Deus e não de mim, ou seja, o que tranquilizava Maria era saber que esse elogio feito pelo Anjo não vinha da natureza dela, esse elogio feito pelo Anjo vinha de uma predileção de Deus. Deus é que teve esse amor por ela, Deus é que deu a graça a Ela”. Eu, jamais quereria ambicionar ser a primeira das mulheres saída das mãos de Deus — nunca! Se Deus o quer, eu estou de acordo com a vontade de Deus. ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’. O Anjo vai dizer mais, uma vez que Ela se tranquiliza sabendo que é pela ação da graça, lhe diz: ‘Eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, e por-lhes-á o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó; e o seu reino não terá fim’.

III – A beleza da virgindade

Imaginem uma virgem que fez voto de virgindade, que não quer saber de maneira alguma de ofender a Deus recebe o convite para ser Mãe do Filho de Deus. Qualquer um5 de nós diante dessa situação diria: ‘Ótimo, que coisa extraordinária, vamos direto, façamos logo isto’. Maria perguntou ao Anjo. Como se fará isto, pois eu não conheço varão? É a preocupação, Ela é virgem e prometeu ser virgem até o fim da vida. Deus ama tanto a virgindade, que Ele A fez permanecer virgem antes, durante e depois do parto. E aí está Ela neste primeiro mistério gozoso ressaltando muitíssimo esta virgindade. Ela diz: como se fará isto… E o que tranquiliza Maria é quando o Anjo diz: O Espírito Santo descerá sobre Ti, e a força do Altíssimo Te envolverá com a Sua Sombra, e por isso mesmo o santo que há de nascer de Ti será chamado Filho de Deus…. O Anjo dá uma prova: … Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se diz estéril; porque a Deus nada é impossível. Aí então Nossa Senhora diz: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua Palavra. Quanto Ela aqui faz transparecer a beleza da virgindade! E então, recolhimento, despretensão e, portanto, a humildade, e a virgindade são para nós exemplos. Exemplo neste mundo que diz exatamente o contrário, este mundo que hoje em dia é um mundo dissipado, feito de orgulho e de impureza, a castidade vai desaparecendo, a castidade vai se retirando deste mundo.

Como alcançar a verdadeira paz.

 Eu julgo que para se ter a verdadeira paz seria preciso que os homens e as mulheres todos praticassem a castidade, segundo o seu estado. A prática da castidade é fecunda. Nós vemos aqui este exemplo. Ela, Virgem, passa a ser a Mãe de Deus, e por sua alta humildade, alto recolhimento e virgindade, Ela não só é Mãe de Deus, mas recebe como filhos e filhas toda a humanidade. Entretanto, sendo Nossa Senhora a nossa medianeira, disse em Fátima, “por fim o Meu Imaculado Coração triunfará”. O triunfo do Imaculado Coração Dela será através do espírito de piedade fazendo os homens voltarem-se para Deus. A humildade reconhecendo tudo o que há de bom no Reino de Deus, na prática da castidade e de todas as outras virtudes. E que assim possa Ela olhando para nós dizer: Por fim o Meu Imaculado Coração triunfou. Como triunfou? Porque Ela obteve para nós essas graças todas.

Oração Final

 Ó Mãe, Vós que sois a Rainha do Anjos, a mais piedosa de todas as mulheres, a mais humilde de todas as criaturas, a mais virginal, minha Mãe, nesta meditação que Vos oferecemos, para reparar o Vosso Sapiencial e Imaculado Coração de tantos crimes, tantas abominações que hoje em dia se cometem, nós vos pedimos, dai-nos a graça de sermos como Vós: humildes, piedosos e recolhidos; dai-nos a graça de sermos castos e puros. Dai-nos a graça de sermos um reflexo de vosso Sapiencial e Imaculado Coração no que Ele tem de mais excelso no que Ele tem de mais excelente que são estas virtudes e muitas outras. Minha Mãe, nós queremos ser um daqueles que verão o triunfo de Vosso Sapiencial e Imaculado Coração. Amém!

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