11 de Setembro

O 11 de Setembro e os acontecimentos que se lhe seguiram – enquadrados na denominada “luta contra o terrorismo” – suscitaram já as mais variadas análises acerca de um problema complexo, digno de ser analisado do ponto de vista social, político, ético e religioso. A perda de tantas vidas humanas e os atrozes sofrimentos causados feriram a solidariedade humana e legitimaram as mais variadas interrogações: Fundamentalismo ou fanatismo religioso? Choque de civilizações? Papel dos Estados Unidos da América frente ao mundo árabe e ódios entretanto gerados? Gesto de poder para afirmar quem é que manda? Defesa do mundo ocidental, da liberdade e da democracia? Libertar o mundo do terrorismo organizado recorrendo à força das armas? Defesa de interesses económicos semi-ocultos, inerentes à produção das armas e a outras inquestionáveis riquezas?

Como Cristão, sinto a perplexidade de um insondável mistério, procurando apenas um pouco de luz. Minha vontade de ser cristão sentiu-se enferma pelo impacto dos acontecimentos e pela possibilidade de minha fé ser arrastada por um enorme e descontrolado rio que tudo arrasta em suas águas impetuosas. Face a tanto sofrimento – 11 de Setembro, Afeganistão, Iraque, Londres, Madrid, Líbano – muitos perguntam: “onde está Deus?”

Perante o drama humano, recuso-me aceitar que Deus possa inspirar ações violentas ou alimente o ódio de alguns cristãos que tentam apontar as armas contra os seus semelhantes. Também não posso acreditar que Deus possa querer corrigir uma sociedade materialista com a crueza da pena de morte, de forma indiscriminada a tantas vítimas inocentes. A escuta do Evangelho permite-nos afirmar que a morte destas pessoas não pode dever-se a castigo, pois não eram piores que os demais. Porém, se estes acontecimentos não provocam a nossa conversão, levando-nos a mudar de vida, nada haverá remédio.

Acreditamos em Deus criador, providente, amigo da vida, que não é insensível ou indiferente perante as catástrofes ou amarguras humanas. Quando perguntamos onde está Deus Ele responde-nos com novas interrogações: E tu, (Adão), “onde estás?” Caim, “onde está o teu irmão Abel?… Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar contra mim!” É extraordinário verificar como se comporta o coração de Deus, sempre atento ao sofrimento, quando as vítimas passam a agressores e os agressores a vítimas. Na minha compaixão para com as vítimas inocentes recuso-me a aceitar o absurdo, espero contra toda a esperança e proclamo que sua morte absurda não pode ter a última palavra. Há um sentido que as redime e as reinstalará nesse mundo original, saído das mãos de Deus, que “era bom” e que o homem com todas as suas loucuras não conseguirá arruinar totalmente. Nossa compaixão com as vítimas deve firmar em nós o desejo ou a inquietação pelo bem superior a todos os males, cuja força partirá todas as cadeias malévolas ao ser humano. A morte e Ressurreição de Jesus Cristo, embora sem explicá-lo, ilumina-nos o absurdo do mal e possibilita-nos sua vivência sem desespero nem vingança, convictos de que as forças personificadas do mal não prevalecerão sobre as vítimas inocentes. Como vigorosamente expressa o Talmud, prefiro acreditar que “Deus está do lado das vítimas, inclusive quando o justo persegue ao perverso.” O criminoso Caim, embora “errante fugitivo”, contou com a protecção de Deus e doravante, “quem matar Caim será vingado sete vezes.” (Gn. 4, 15)

Face a este acontecimento e a tanto sofrimento que o homem ainda provoca ao seu semelhante, a fé em Deus aumenta-me a convicção de que, embora lentamente, aproximamo-nos do dia em que, sem a força das armas e somente pelo diálogo, construiremos a verdadeira paz. Por isso, quando assisto ainda a tantas guerras e suas incontáveis vítimas inocentes, como cristão, recuso-me a opinar sobre assuntos que me ultrapassam e não entendo minimamente e prefiro ajoelhar, levantando minhas mãos e o meu olhar para Deus Pai, para suplicar o dom da verdadeira paz para todos os seus filhos que, afinal, compõem toda a Humanidade.

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