Bíblia: tesouro do coração

Como definir a Bíblia? Se contemplarmos o autor, diremos: é a Palavra de Deus. Se olharmos o destinatário e a razão porque Deus dirige sua Palavra, diremos: é para revelar-nos o tesouro do seu coração e do nosso coração.

Os judeus contam 24 livros na sua Bíblia, que eles denominam Tanak, termo formado pelas iniciais de Torah “Lei”, Nebi”im “profetas”, e Ketubim outros “escritos”. Estes 24 podem ser também contados 22, o número das letras do alfabeto hebraico. No cânone (lista oficial) cristão, a estes 24 ou 22 livros correspondem 39 livros, ditos “protocanônicos”. A diferença se explica pelo fato de que os judeus consideram como um só livro muitos escritos que no cânone cristão são distintos, por exemplo, os escritos dos 12 profetas “menores”.

A Igreja Católica conta com 46 livros no seu cânone do Antigo Testamento, 39 protocanônicos e 7 deuterocanônicos, chamados assim porque os primeiros foram aceitos no cânone sem grande discussão ou mesmo sem discussão alguma, enquanto que os demais (Eclesiástico, Baruc, Tobias, Judite, Sabedoria, 1º e 2º Macabeus e algumas partes de Éster e Daniel) foram aceitos definitivamente só depois de vários séculos de hesitação por alguns padres da Igreja, (como também de São Jerônimo); as Igrejas da Reforma os chamam “apócrifos”. São 27 os livros do Novo Testamento. Total: 73.

A Palavra de Deus é o alimento do cristão. Uma vez feita a opção de ser filho de Deus pelo batismo, o cristão deverá ter consciência da sua condição e buscar o alimento para qualificar sua vida. Cristo Jesus, ao início da pregação do evangelho, diante do tentador que lhe dizia de converter as pedras em pães, respondeu: “Está escrito: Não só de pão é que se vive, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Lucas 4, 3-4).

Não se é cristão se não se ouve a Palavra de Deus e, se ouvida, não é posta em prática. A vida humana tem valor inestimável não só na eternidade destinada à visão de Deus, mas já no tempo presente por ser motivo da encarnação do Filho de Deus, o que demonstra o amor de Deus por nós. O valor pessoal da vida humana somente é alcançado quando se ama o próximo como Deus fez conosco.

Ser discípulo de Jesus é tornar-se ouvinte e praticante da sua Palavra.

Daí a necessidade de grande atenção à catequese para adquirir a familiaridade com os livros das Escrituras Sagradas e com a exposição sistemática da doutrina e norma de vida nelas contidas.

A iniciação à Palavra de Deus começa dentro da família, alarga-se na comunidade cristã e nos estudos pessoais, não somente em momentos importantes da vida, mas continuamente nas condições mais diferenciadas para confronto, renovação e aperfeiçoamento da vida cristã.

Uma conseqüência necessária é que a catequese não seja destinada somente à criança, mas deve ser permanente. Todos nós precisamos conhecer sempre mais os conteúdos da Palavra de Deus em catequese sistemática, bem como o ensinamento permanente do magistério da Igreja, depositário da missão própria recebida de Cristo Jesus.

Ninguém ama o que desconhece. Os exegetas, os biblistas, os teólogos têm a missão de guardas cuidadosos do depósito da fé. Os catequistas são os profetas de Deus, falam em nome de Deus que assim continua a se dirigir a seus filhos. Devem os catequistas ser fiéis à doutrina de Cristo recebida por meio dos apóstolos que chega até nós por seus sucessores na Igreja. São descabidas interpretações pessoais da Palavra revelada.

Jesus é o verdadeiro exegeta que interpreta a vontade do Pai. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, diz Jesus (Lucas 8, ). Devemos pedir, com o salmista no Salmo 118,18: “Tira-me os véus dos olhos e contemplarei as maravilhas de tua Lei”.

“Alimentar-se da Palavra para sermos “servos da Palavra” no trabalho da evangelização: tal é, sem dúvida, uma prioridade da Igreja ao início do novo milênio. Deixou de existir, mesmo nos países de antiga evangelização, a situação de “sociedade cristã” que não obstante as muitas fraquezas que sempre caracterizaram tudo o que é humano, tinha explicitamente como ponto de referência os valores evangélicos” (João Paulo II, Início do Novo Milênio).

A Palavra de Deus revelada aos seres humanos é o tesouro do coração de Deus que é todo Amor para se comunicar aos seres humanos e com eles formar um pacto de amor. Deus revela ao homem o próprio homem, a sua dignidade, a sua destinação. O tesouro do nosso coração, que há de preencher todos os nossos anseios, somente Deus pode realizá-lo. O nosso coração permanece inquieto até que repouse em Deus.

Que este mês da Bíblia nos ajude a tomar consciência da riqueza e necessidade de aprofundar nosso contato e vivência da Palavra de Deus. Assim poderemos dar razão da nossa fé e esperança em Cristo Jesus.

 

Dom Geraldo Majella Agnelo
Cardeal Arcebispo de São Salvador da Bahia

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Um comentário sobre “Bíblia: tesouro do coração

  1. A Palavra divina é sempre eficaz, verídica e infalível. Através dela o mundo foi criado: “Deus disse […] e assim se fez” (cf. Gn 1). Cada criatura é obra de uma palavra do Senhor e, por isso, uma mensagem dEle para nós. Quando Jesus fala aos Apóstolos: ”Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12) ou “Dou-vos a minha paz” (Jo 14,27), Ele próprio produz essa luz e essa paz em nós.

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