CORAÇÃO FERIDO

Autor: Frei Lourenço Maria Papin, OP

“Um dos soldados lhe abriu o lado com um golpe de lança e imediatamente jorrou sangue e água” (Jo 19, 34).

Essas são palavras do evangelista João narrando a morte de Jesus pregado na cruz (Jo 19, 34).

Já na antiguidade cristã, numerosos Santos Padres e Doutores da Igreja, com fundamento, deram uma interpretação mística dessa chaga aberta do lado de Jesus: “viram na água o símbolo do Batismo, no sangue o símbolo da Eucaristia e nesses dois sacramentos o sinal da Igreja, nova Eva que nasce do novo Adão” (Cf. nota da Bíblia de Jerusalém).

Essa visão mística da chaga do Salvador deu origem, na Idade Média, à veneração do Coração divino como sede do amor de Deus feito homem.

Coração
ressuscitado
que
incondicionalmente
nos ama

Ao longo dos séculos essa veneração foi se firmando como devoção, sobretudo na piedade popular, tornando-se, a mais de 150 anos, uma solene celebração litúrgica extensiva a toda Igreja no Ocidente.

Atualmente essa celebração, com o nome de Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, ocorre na segunda sexta-feira após Corpus Christi, seguindo o calendário móvel da Liturgia.

Estamos diante do mistério do amor infinito do Pai pela humanidade. Amor misericordioso, Amor de compaixão. “Tanto Deus amou o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigênito, a fim de que todo aquele que nele crer não se perca, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Olhando para Divino Crucificado que deu a vida por nós, entendemos melhor o amor infinito do Pai que Jesus abraçou em seu coração humano, pois “tendo amado os seus que estavam neste mundo, Ele os amou até o fim” (Jo 13, 1).

O mistério do amor infinito que nos envolve, constitui o conteúdo do culto e da devoção ao Coração de Jesus. Pelo culto ao coração de Jesus penetramos no âmago de sua obra redentora na cruz e fazemos a experiência mística desse amor em nossa vida cristã.

Esse culto e essa veneração se dirigem obviamente ao Coração do Cristo gloriosamente ressuscitado. Portanto, Coração ressuscitado que palpita vivo por toda a eternidade! Assim, penetramos também no âmago da ressurreição do Senhor.

Em humilde homenagem a um meu confrade sacerdote (Frei José Maria) falecido vítima de violento enfarte escrevi: “Seu coração ressuscitado continuará palpitando no Coração do Cristo Sacerdote presente no meio de nós”.

O culto ao Coração de Jesus contém, porém, um sério questionamento: “Todos nós pecadores fomos autores e como que instrumentos de todos os sofrimentos por que passou o Divino Redentor” e que feriram mortalmente seu Coração. Trata-se de uma culpa de amplitude universal. Por isso esse culto exige também uma ação reparadora universal dessa culpa.

Esse questionamento nos convida a uma atitude de conversão radical que nos conduza ao humilde reconhecimento de nossos pecados, a uma renovação de vida cristã e a um permanente pedido de perdão ao Divino Redentor, não só dos nossos mas dos pecados de toda humanidade. Conforta-nos pensar que infinita é a misericórdia divina.

Nessa perspectiva penitencial e reparadora, mais profundamente entenderemos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, Coração que ferimos, Coração ressuscitado que incondicionalmente nos ama.

 

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